Por Cíntia Santos
A morte da empresária Adriele da Silva Pinto, de 31 anos, durante uma cirurgia plástica em Ilhéus, no sul da Bahia, chamou atenção para os cuidados necessários antes da realização de procedimentos estéticos. A paciente foi submetida a quatro procedimentos no mesmo ato cirúrgico: mastopexia com prótese, lipoescultura, remodelamento costal e jato de plasma. O caso é investigado pelas autoridades.
Diante de situações como essa, especialistas reforçam que uma cirurgia plástica exige planejamento, avaliação individualizada e uma estrutura adequada para a realização do procedimento e para o acompanhamento do paciente.
Para o cirurgião plástico Dr. Tiago Amoedo, especialista em contorno corporal e lipo de definição, a primeira etapa para reduzir riscos é a consulta pré-operatória.
“Antes de uma cirurgia, a necessidade da consulta pré-operatória é fundamental. Em consulta pré-operatória, a gente consegue fazer a anamnese, avaliar o paciente e, a partir daí, avaliar os potenciais riscos e solicitar exames e avaliações que diminuam esses riscos”, explica.
Segundo o médico, os exames não devem ser definidos de maneira padronizada para todos os pacientes. A investigação depende das condições individuais e de possíveis fatores de risco identificados durante a consulta.
“Em geral, exames completos de sangue, radiografias, avaliação cardiológica, avaliação anestésica, ultrassons e dopplers são exames básicos para a realização de um procedimento de médio porte”, afirma.
Quando uma cirurgia deve ser adiada?
A identificação de uma condição que aumente o risco do procedimento pode levar à mudança dos planos. De acordo com o especialista, uma cirurgia pode ser postergada quando o paciente apresenta alguma comorbidade ou situação que possa ser tratada ou controlada antes da operação.
“A cirurgia pode ser adiada caso o paciente tenha alguma comorbidade ou algo que faça com que o procedimento, conhecidamente, se torne mais arriscado”, explica.
A decisão também pode ocorrer durante a própria operação. Segundo Tiago Amoedo, se surgir uma situação que indique aumento significativo do risco, o procedimento pode ser suspenso pela equipe.
Vários procedimentos na mesma cirurgia exigem avaliação individual
Um dos pontos que chama atenção no caso de Ilhéus é a realização de quatro procedimentos no mesmo ato cirúrgico. Para o cirurgião, a decisão sobre combinar ou não diferentes intervenções deve ser exclusivamente técnica.
“É compreensível o paciente, em consulta, querer realizar um, dois, três, quatro procedimentos ao mesmo tempo. Mas cabe ao cirurgião, que é o técnico, decidir se isso é viável ou não”, afirma.
A avaliação considera diferentes variáveis relacionadas às condições clínicas do paciente e aos procedimentos pretendidos.
“O cirurgião avalia diversas variáveis que são individualizadas para responder se estes procedimentos são viáveis e seguros”, explica.
Para o médico, o planejamento deve encontrar um equilíbrio entre a expectativa do paciente e aquilo que é tecnicamente possível.
“No momento em que o desejo estético do paciente fica muito próximo da realidade técnica, temos uma boa cirurgia. No momento em que essa balança está desregulada, os riscos aumentam”, afirma.
Como escolher um cirurgião plástico?
Outro cuidado fundamental está na escolha do profissional. Segundo Tiago Amoedo, o paciente deve verificar se o médico possui formação e especialização em cirurgia plástica.
“O cirurgião plástico é um médico que passou por seis anos de medicina, dois a três anos de cirurgia geral e três anos de cirurgia plástica. Depois disso, há a prova de título de especialista, recebendo a chancela da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica”, explica.
O médico recomenda que a especialização seja o primeiro filtro antes da contratação.
“Jamais realizar um procedimento com um não especialista”, alerta.
Mesmo entre profissionais especializados, o paciente deve considerar a experiência do médico com o procedimento que pretende realizar.
“É necessário avaliar quais cirurgias e quais procedimentos os especialistas têm mais capacidade, número de casos, confiabilidade e trajetória. Dessa forma, você tem muito mais chance de uma cirurgia mais segura”, afirma.
A estrutura onde a cirurgia será realizada também importa
A escolha do local onde o procedimento será realizado é outro componente da segurança. Para o especialista, o centro cirúrgico precisa oferecer estrutura adequada tanto para a operação quanto para o período posterior.
“É importante que seja um local em que o cirurgião se sinta mais ambientalizado para fazer o procedimento”, explica.
Além disso, o médico destaca a necessidade de verificar a estrutura disponível para acomodação, recuperação e eventual atendimento de maior complexidade.
“É preciso observar se há estrutura de centro cirúrgico e pós-operatório, se existe associação com medicina intensiva e se há equipe para prestar um pós-operatório adequado. Dessa forma, a gente tem um procedimento muito mais seguro”, afirma.
Nenhum sinal do pós-operatório deve ser ignorado
O cuidado também continua depois da cirurgia. Segundo Tiago Amoedo, o período pós-operatório exige atenção tanto do paciente quanto da equipe médica.
“Um pós-operatório é um momento muito sensível, tanto para o paciente quanto para a equipe médica”, afirma.
Para o especialista, qualquer alteração percebida pelo paciente deve ser comunicada e avaliada.
“Nenhum sinal no pós-operatório deve ser pormenorizado. Todas as dúvidas, todos os sinais têm que ser avaliados, discutidos e tratados caso tenham alguma indicação de tratamento”, explica.
O médico alerta que minimizar sintomas pode atrasar a identificação de uma possível complicação.
“Quando a gente começa a pormenorizar algum sinal pós-operatório, pode estar deixando de avaliar de forma precoce algo que possa ser tratado precocemente”, afirma.
A orientação é que o paciente mantenha contato com a equipe responsável e procure atendimento diante de qualquer alteração que fuja do que foi explicado como esperado durante a recuperação.
Segurança começa antes da cirurgia
No caso de Adriele, as circunstâncias da morte ainda são investigadas e não é possível estabelecer, neste momento, que os procedimentos realizados tenham sido responsáveis pelo óbito.
O episódio, porém, reforça a importância de que o paciente não trate uma cirurgia plástica como um procedimento simples ou livre de riscos. A decisão deve ser tomada depois de uma avaliação médica individualizada, com investigação das condições clínicas, escolha de um profissional habilitado e definição de uma estrutura adequada para a realização e o acompanhamento da cirurgia.
Antes de marcar o procedimento, o paciente deve conhecer os riscos, esclarecer dúvidas, informar ao médico todas as condições de saúde e medicamentos utilizados e saber como será feito o acompanhamento no período pós-operatório.