Por Cíntia Santos
O caso do Banco Master ganhou novas dimensões em menos de um ano e passou a envolver, além da suspeita de uma fraude bilionária, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), parlamentares, servidores públicos e dirigentes de instituições financeiras.
As investigações começaram após a liquidação do banco e a prisão de seu então controlador, Daniel Vorcaro, em novembro de 2025. A Polícia Federal apura suspeitas relacionadas à venda de carteiras de crédito sem lastro e à emissão de títulos que a instituição não teria condições de honrar.
Segundo a PF, Vorcaro mantinha uma ampla rede de contatos e há indícios de pagamentos, presentes, convites para eventos e outros benefícios que poderiam ter sido usados para obter informações ou favorecer os interesses do banco.
Relação com Alexandre de Moraes
Um dos principais pontos da investigação envolve o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Mensagens encontradas no celular de Vorcaro indicam contato frequente entre os dois e encontros presenciais entre março de 2024 e agosto de 2025.
Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso no aeroporto, Vorcaro enviou a Moraes a mensagem: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”
Documentos também apontam contratos entre empresas ligadas a Vorcaro e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Um contrato de R$ 131 milhões teria sido revisado e editado por Moraes, segundo a PF. Outro, de R$ 50 milhões, previa pagamentos em dinheiro ou bens, incluindo R$ 40 milhões em cotas de um jatinho e de um helicóptero.
A PF também encontrou mensagens sobre uma viagem de Moraes a Campos do Jordão, em dezembro de 2023. Segundo os investigadores, Vorcaro teria determinado a preparação de uma “experiência completa” para convidados classificados como “ultra VIP”, com chef particular, passeios a cavalo e quatro seguranças.
A relação ainda teria envolvido eventos jurídicos promovidos pelo Banco Master em Londres, com participação de Moraes em decisões sobre convidados e programação.
Moraes não se manifestou. O escritório de Viviane Barci informou que não atuou em causas de Vorcaro no STF e que o contrato foi suspenso após a liquidação do Master.
Flávio Bolsonaro
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também passou a ser investigado no caso. Documentos revelados em setembro mostram que a apuração busca esclarecer a origem e o destino de recursos destinados ao filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.
Segundo a investigação, Flávio teria negociado com Vorcaro recursos para a produção. Pelo menos R$ 61 milhões teriam sido repassados.
Em uma das mensagens, Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.
Flávio inicialmente negou ter relação com Vorcaro, mas depois afirmou que o pedido correspondia a um patrocínio para um projeto privado e negou irregularidades.
Desde julho, ele é formalmente investigado por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e outros delitos relacionados, segundo documentos da investigação. A PF também apura se parte dos recursos teria sido usada para financiar a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Outro inquérito, relatado pelo ministro Flávio Dino, investiga suspeitas relacionadas ao uso de R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas pelo deputado Mario Frias (PL) em contratos ligados à produtora do filme. Uma operação autorizada por Dino na quinta-feira (10) apreendeu materiais relacionados aos investigados.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades.
Outros políticos investigados
Os documentos também mostram investigações envolvendo outros políticos.
Jaques Wagner (PT-BA): a PF apura a relação do senador com Augusto Lima, ex-sócio do Master. Entre os pontos investigados estão a negociação de um apartamento de luxo em Salvador, avaliado em R$ 2,45 milhões, e o recebimento de vinhos de alto valor. Wagner confirmou a negociação do imóvel e nega irregularidades.
Ciro Nogueira (PP-PI): é investigado por possível atuação em favor de Vorcaro e do Banco Master no Congresso, incluindo a chamada “emenda Master”. A PF aponta suspeitas de vantagens financeiras. O senador nega as acusações.
Cláudio Castro: a investigação apura possíveis irregularidades nos R$ 3,6 bilhões aplicados pelo Rioprevidência no Banco Master. Segundo os investigadores, operações consideradas de alto risco teriam sido realizadas. Castro nega irregularidades.
Crise no STF
A Operação Compliance Zero, que investiga as suspeitas envolvendo o Banco Master, avançou para diferentes frentes e provocou uma crise dentro do STF.
Inicialmente, Dias Toffoli supervisionava o caso. A relatoria passou para André Mendonça, em fevereiro, após suspeitas envolvendo negócios relacionados ao Master e pessoas próximas ao ministro.
Em setembro, Mendonça retirou o sigilo de parte dos documentos da investigação. O material detalhou as relações de Vorcaro com autoridades e políticos e ampliou a pressão sobre o STF.
A divulgação também desencadeou um conflito entre ministros. Moraes acusou Mendonça de abuso de autoridade e pediu que o colega fosse investigado. Mendonça, por sua vez, determinou o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, alegando monitoramento de ministros do STF. Flávio Dino posteriormente determinou o retorno dos dois aos cargos.
Na quarta-feira (9), o presidente do STF, Edson Fachin, assumiu a relatoria do inquérito das Fake News, retirando o caso de Moraes, e suspendeu decisões de Mendonça e Dino relacionadas à direção da PF.
Fachin também determinou que Mendonça retire o sigilo dos documentos do caso Master em até 24 horas, com exceção de informações cujo sigilo seja necessário para preservar diligências em andamento. A PGR havia questionado a divulgação parcial dos documentos.
O STF marcou para terça-feira (15) uma sessão para discutir a crise e o relatório da PF sobre Moraes. O episódio colocou o caso Master no centro de uma crise institucional que envolve o Supremo e políticos de diferentes grupos em meio ao ano eleitoral.