Cientistas encontram no Brasil fóssil que pode ser de um dos dinossauros mais antigos do mundo

Por Redação 02/06/2025, às 05h03 - Atualizado 01/06/2025 às 18h55

Guardado por décadas na coleção da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um fóssil encontrado em Santa Cruz do Sul (RS) acaba de ganhar destaque internacional. Pesquisadores brasileiros e argentinos identificaram o material como pertencente a uma nova espécie, batizada de Itaguyra oculta, que pode representar um dos dinossauros mais antigos já registrados.

O estudo, publicado nesta sexta-feira (30) na revista Scientific Reports, do grupo Nature, analisou dois ossos da cintura pélvica do animal — um ílio e um ísquio — e concluiu que se tratava de um integrante do grupo dos silessauros, répteis que viveram há cerca de 237 milhões de anos, durante o período Triássico, pouco depois da chamada Grande Morte, evento de extinção em massa que eliminou mais de 95% das espécies marinhas e 70% dos vertebrados terrestres.

Segundo os autores, o fóssil ajuda a preencher uma lacuna temporal importante e fortalece a hipótese de que os silessauros — até então vistos como parentes próximos dos dinossauros — são, na verdade, os primeiros representantes da linhagem dos ornitísquios, grupo que inclui espécies como o Tricerátopo e o Estegossauro.

“A descoberta preenche um hiato temporal crítico e sustenta a ideia de que os silessauros podem ser os primeiros ornitísquios”, afirma Voltaire Paes Neto, pesquisador do Museu Nacional/UFRJ e autor principal do estudo. “Se isso for confirmado, Itaguyra oculta passa a figurar entre os dinossauros mais antigos do mundo.”

O nome da espécie é uma homenagem à história do achado: “Itaguyra” junta as palavras tupi “ita” (pedra) e “guyra” (ave), enquanto “occulta” faz referência ao fato de o fóssil ter permanecido “escondido” por décadas em meio a outros materiais.

A descoberta também reforça a importância do sul do Brasil para os estudos sobre a origem dos dinossauros. “A presença contínua de silessauros na região mostra que o território foi um dos centros de diversificação dos primeiros dinossauros”, explica o paleontólogo Flávio A. Pretto, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), coautor da pesquisa.

Alexandre Kellner, diretor do Museu Nacional e também coautor do estudo, destaca que a descoberta contribui para decifrar um dos maiores enigmas da paleontologia: a origem das duas grandes linhagens de dinossauros — os saurísquios e os ornitísquios, classificações reconhecidas há mais de 150 anos.

Além da UFSM, do Museu Nacional e da UFRGS, o estudo teve a participação da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), do Museo Argentino de Ciencias Naturales, com apoio da Faperj e do projeto INCT-Paleovert.