Crianças brasileiras enfrentarão até 7 vezes mais ondas de calor do que gerações passadas, aponta estudo

Por Redação 06/06/2025, às 05h07 - Atualizado 05/06/2025 às 16h46

Crianças nascidas no Brasil em 2020 devem vivenciar, ao longo da vida, 6,8 vezes mais ondas de calor e quase três vezes mais inundações e perdas de safra do que aquelas nascidas em 1960. O alerta é do relatório A Primeira Infância no Centro da Crise Climática, divulgado nesta quinta-feira (5) pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

O estudo reúne dados do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz e mostra uma escalada nos eventos extremos no Brasil: de 1.779 ocorrências em 2015 para 6.772 em 2023. Esse aumento acentuado tem reflexos diretos na vida de crianças de até seis anos — um grupo que soma hoje 18,1 milhões de pessoas, ou 8,9% da população brasileira.

A exposição precoce e contínua a fenômenos climáticos extremos pode afetar profundamente o desenvolvimento físico, emocional e cognitivo dessas crianças, segundo os autores. “Desde os primeiros dias de vida, elas já enfrentam ondas de calor, poluição do ar e riscos ambientais que podem comprometer seu futuro”, alerta Márcia Castro, coordenadora do estudo e chefe do Departamento de Saúde Global da Universidade Harvard.

Desenvolvimento em risco

O impacto do clima sobre a primeira infância vai além da saúde. A pesquisa aponta prejuízos em áreas fundamentais como nutrição, segurança alimentar, moradia, aprendizado, acesso à educação e cuidados básicos. Em contextos vulneráveis, os efeitos se intensificam: 37,4% das crianças brasileiras com até 4 anos vivem em insegurança alimentar, e 5% enfrentam desnutrição crônica.

O deslocamento forçado em decorrência de desastres climáticos atinge de forma particular essa faixa etária. Apenas em 2024, no Rio Grande do Sul, mais de 3.900 crianças de até 5 anos foram levadas para abrigos públicos entre os 580 mil desalojados pelas enchentes. No total, mais de 4 milhões de pessoas foram deslocadas no Brasil por eventos climáticos entre 2013 e 2023.

Educação também afetada

Outro impacto apontado é na educação. Só em 2024, os eventos climáticos interromperam as aulas de 1,18 milhão de crianças e adolescentes no país. No Rio Grande do Sul, as enchentes causaram a perda de mais de 55 mil horas de aula.

“Proteger a infância diante da crise climática não é uma escolha política, é uma necessidade urgente”, ressalta Alicia Matijasevich, professora da USP e também coordenadora do estudo.

Medidas urgentes

O relatório traz um conjunto de recomendações para que as políticas públicas climáticas tenham foco na proteção das crianças. Entre elas, estão:

  • Fortalecimento da atenção primária à saúde;
  • Ampliação do acesso à água potável e saneamento básico;
  • Garantia da segurança alimentar e nutricional;
  • Criação de zonas de resfriamento com sombra e áreas verdes em creches e escolas;
  • Protocolos de emergência adaptados às crianças.

A coordenadora Márcia Castro reforça que o futuro das novas gerações depende de medidas concretas agora. “Se nada for feito, essa geração viverá os piores efeitos da crise climática. Precisamos pensar em longo prazo e agir com compromisso coletivo, unindo governos, setor privado e sociedade”, conclui.