Eu me considero advogada do colo. Acredito que o colo cura, fortalece e acalma. Mas essa não é apenas uma crença. A evidência do benefício do colo e do afeto na educação infantil é vasta e comprovada por pesquisas, demonstrando que a presença de um cuidador, como a mãe, o pai ou outro familiar, oferece segurança e estabilidade emocional, que são essenciais para o desenvolvimento saudável das crianças. Mas por que existem tantas pessoas ainda dizendo que dar colo acostuma a criança mal? Tanta gente dizendo que dormir no colo não pode? Vamos conversar um pouco sobre isso.
O ritmo de vida que a maioria da sociedade vive hoje torna o ato de dar colo, para muitos, um atraso na rotina diária, pois sempre há muito o que se fazer e pouco tempo disponível. Então, muitas pessoas enxergam atitudes como dar colo, acolher, consolar e ninar para dormir como perda de tempo. Porém, a verdade é que, quando damos colo e acolhemos com afeto, estamos construindo indivíduos mais seguros e com melhor desenvolvimento social, cognitivo e emocional. Desta forma, toda a comunidade ganha e não se desperdiça tempo nem recurso posteriormente resolvendo os problemas socioemocionais decorrentes do abandono emocional.
Ajudar a criança a desenvolver autonomia não passa por deixá-la chorando no berço para dormir ou deixá-la chorar após sofrer uma frustração. Ninar, dar colo, consolar não interferem na autonomia da criança. Muito pelo contrário, dão para a ela a certeza de um ambiente seguro onde podem se desenvolver, fazer escolhas, errar e serem consoladas. Para ajudar uma criança a ter autonomia, devemos envolvê-las nas tarefas diárias, permitir que errem e sejam acolhidas e orientadas no erro, permitir que façam escolhas no seu dia a dia (por exemplo, que roupa vestir, que fruta comer), permitir que se expressem e falem sobre os seus sentimentos e seus medos. Um ambiente organizado e com rotina também é considerado fundamental para o desenvolvimento de autonomia.
Talvez a maior questão relacionada ao colo hoje seja o momento de dormir. As mães têm medo de “acostumar mal” a criança a dormir no colo e querem que, desde cedo, os bebês tenham “autonomia do sono”. É claro que é importante acostumar o bebê a dormir no berço, mas precisamos lembrar que existe um processo de amadurecimento neuronal envolvido que depende de tempo para acontecer. Os três primeiros medos de vida são chamados de “exterogestação” ou gestação fora do útero. Neste período, considerado fundamental para o desenvolvimento físico e emocional do bebé, deve-se permitir uma transição mais suave para a vida extrauterina, através da criação de um ambiente que simule o ambiente uterino, proporcionando ao bebé segurança e conforto. Nada mais apropriado que o colo, concordam?
Entender as etapas do desenvolvimento humano, o processo de amadurecimento emocional e a importância do afeto seguro para a formação do indivíduo na infância são fundamentais para repensarmos a forma como a sociedade tem transformado um ato milenar de cuidado, que é o dar colo. As orientações sobre rotina e sono das crianças devem sempre ser individualizadas e adequadas para cada realidade de família, mas acolher, consolar, dar colo, ninar e criar indivíduos com melhor autoestima e resiliência são premissas universais da educação infantil.
Lis Thomazini