Por Mirian Silva*
O Brasil segue entre os países com maior letalidade policial do mundo em 2025. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 80% das pessoas mortas por intervenções policiais em 2024 eram negras. O índice revela um padrão de violência racial que se mantém ao longo dos anos, com casos recorrentes e investigações que, em muitos casos, não resultam em punições efetivas.
Na Bahia, os números são especialmente preocupantes. Salvador foi, em 2024, a capital brasileira com a maior taxa de mortes violentas: 52 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da registrada no Rio de Janeiro (20,4). Das mortes violentas contabilizadas na capital baiana, 420 foram provocadas por agentes de segurança pública, conforme dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Apesar da gravidade, o número representa uma leve redução em relação a 2023, quando houve 457 casos semelhantes. No mesmo período, quatro agentes de segurança morreram em serviço, número idêntico ao do ano anterior.
Casos recentes continuam a reforçar o padrão de violência policial com forte recorte racial. Em julho deste ano, Guilherme Dias Santos Ferreira, de 26 anos, foi morto com um tiro na cabeça disparado por um policial militar em Parelheiros, zona sul de São Paulo. Ele estava com uma marmita, talheres, um livro e a roupa de trabalho na mochila, e havia acabado de sair da marcenaria onde trabalhava. O policial alegou que reagiu a uma tentativa de assalto, mas a investigação da Polícia Civil descartou a participação de Guilherme em qualquer crime. Segundo o boletim de ocorrência, ele apenas “se aproximava com pressa do ponto de ônibus”. O agente foi autuado por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.
Outros episódios emblemáticos ocorreram nos últimos anos. Em 2020, no Rio Grande do Sul, a costureira Dorildes Laurindo, de 53 anos, foi morta após a Brigada Militar disparar 35 tiros contra o carro em que ela estava com o namorado, o turista angolano Gilberto Andrade de Casta Almeida. Ele sobreviveu, mesmo com duas balas alojadas no corpo.
Em 2019, no Rio de Janeiro, o músico Evaldo Rosa dos Santos foi morto com 62 tiros disparados por militares do Exército, enquanto levava a família para um chá de bebê. O catador de materiais recicláveis Luciano Macedo, que tentou socorrê-lo, também foi morto. Ao todo, os militares efetuaram 257 disparos naquele domingo.
Apesar das denúncias e da mobilização de entidades civis, a letalidade policial no Brasil não dá sinais de recuo. Em São Paulo, foram 398 mortes por ação policial entre janeiro e abril de 2025, segundo a Secretaria de Segurança Pública — o maior número para o período desde 1995.
Além da frequência dos casos, a impunidade é apontada por especialistas como fator que alimenta a continuidade da violência. Muitos processos não resultam em julgamento ou punição efetiva. Em diversas situações, os responsáveis são autuados por crimes de menor gravidade ou enfrentam apenas sanções administrativas.
Organizações de direitos humanos alertam que a ausência de responsabilização e a falha em enfrentar o racismo institucional contribuem para a perpetuação de um modelo de segurança pública que afeta desproporcionalmente a população negra, especialmente em estados como a Bahia.
*sob supervisão da jornalista Gabriela Encinas