As relações abusivas são muito mais comuns do que imaginamos. Se você nunca vivenciou uma, provavelmente conhece alguém que já experienciou essa dinâmica devastadora.
Esse tipo de dinâmica abusiva pode acontecer em qualquer formato de relacionamento — casal, chefe/empregado, pais/filho, amizade — e se caracteriza pelo exercício de poder de um indivíduo sobre o outro. Sempre haverá alguém dominante e alguém dominado, além do abuso de poder do primeiro sobre o segundo.
Aquele que tem o poder na relação irá ditar as regras de como esse relacionamento funcionará, e o dominado se adaptará a essas regras, adequando-se às exigências e expectativas do dominante.
O dominante sempre será privilegiado no relacionamento. Ele irá receber muito mais do que doar e terá muitos direitos e quase nenhum dever em relação ao outro. Isso significa que o dominado será aquele que serve e doa muito mais do que recebe, não terá direito de reivindicar ou reclamar de nada e deverá aceitar e se submeter a tudo com “alegria”.
No contexto de uma relação abusiva de casal, o dominante é quem escolhe a “vítima” e se aproxima para conquistá-la de forma muito sedutora. Ele fala tudo o que a “vítima” sempre desejou ouvir, prometendo amá-la e protegê-la por toda a vida, impressionando-a com atitudes românticas e intensas.
Nem precisa dizer que a vítima/pessoa dominada se encanta rapidamente e acredita ter encontrado a sua alma gêmea. Ela fica tão empolgada que não quer viver nada além desse novo “amor” e, aos poucos, passa a viver em função do outro, tentando agradá-lo e recompensá-lo por tudo o que ele lhe proporciona.
Porém, quando o dominante conclui a conquista, ele começa a exercer o seu poder e a exigir que a vítima atenda às suas necessidades e obedeça às suas regras. Esse é o momento de mudança no ciclo desse relacionamento, e tudo o que era maravilhoso passa a se transformar em tensão.
O dominante começa a manifestar as suas insatisfações, e iniciam-se as cobranças, críticas, desvalorizações, culpabilizações, controle, desrespeito, indiferença, manipulações e todo tipo de estratégias emocionais que visam manter o parceiro(a) subjugado e devotado a ele.
É nesse momento do relacionamento que os abusos psicológico, moral, físico, sexual e/ou patrimonial ficarão mais evidentes. Porém, nem sempre a vítima consegue perceber que está sofrendo algum tipo de violência.
A essa altura, a vítima está “pisando em ovos”, vivendo uma tensão contínua e se questionando o que fez de errado para que tudo mudasse tão de repente. Ela acha que não é boa o suficiente para agradá-lo e tenta se esforçar ainda mais para fazer o relacionamento dar certo e evitar brigas e explosões do dominante. Ou seja, um verdadeiro inferno emocional.
Quando os abusos (mentiras, traições, punições, maus-tratos…) e as explosões do dominante acontecem, a vítima pode questionar a relação e tentar rompê-la. Porém, o dominante não aceita perder a vítima e passa a agir de forma aparentemente humilde, mostrando-se arrependido. Assim, consegue “amolecer” a vítima e evitar que ela vá embora. Nessa fase, o dominante fica “bonzinho” por algum tempo até que tudo volte ao “normal”.
Após o tempo de calmaria e “lua de mel”, todo o ciclo se inicia novamente: tensão, incidente, reconciliação, “lua de mel”, tensão, incidente, reconciliação, “lua de mel”… Esse ciclo irá se repetir continuamente em uma relação abusiva. A única mudança que ocorrerá será a duração e a intensidade de cada fase. Quanto mais domínio o dominante tiver na relação, menos esforço ele fará nos períodos de “lua de mel” e mais intensos serão os abusos.
Se você se identifica com essa dinâmica tóxica, converse com alguém da sua confiança e busque ajuda profissional. As consequências de uma relação abusiva podem ser devastadoras e destruir a sua autonomia, a sua autoestima e a sua saúde emocional e física.
Os abusos geralmente começam com violência psicológica e moral, podendo evoluir para violência patrimonial e sexual, até chegar à violência física, em muitos casos.
Apesar de comuns, esses relacionamentos não são normais e, muito menos, saudáveis. Você jamais deve se diminuir para se encaixar nas expectativas de alguém ou naturalizar qualquer tipo de abuso.
Nenhum relacionamento vale a sua integridade.
Lembre-se: quanto mais consciente, melhor!
Carolina Leão