Tatá Mutá Imê, líder religioso de matriz africana, denunciou que o terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza, sob sua responsabilidade, foi alvo de um ataque de intolerância religiosa na manhã do último sábado (17), no bairro de Cajazeiras XI, em Salvador. O espaço, de tradição Bantu e em funcionamento há 33 anos, foi pichado pela primeira vez desde sua fundação.
Localizado na Rua Geraldo Brasil, o templo teve os portões e a fachada marcados com palavras ofensivas escritas em tinta vermelha, como “Assassinos” e “Jesus”. A suspeita é de que o crime tenha ocorrido durante a madrugada. Para o sacerdote, o ataque configura ódio e intolerância religiosa contra um território sagrado.
Tatá Mutá Imê afirmou que o terreiro nunca teve conflitos com a vizinhança ou com outros grupos religiosos e destacou a atuação social desenvolvida no local ao longo de mais de três décadas. Ele também ressaltou que sempre manteve cuidado para não causar incômodo à comunidade, com atividades realizadas em horários restritos.
O líder religioso chamou atenção para o simbolismo do episódio, ocorrido poucos dias antes de 21 de janeiro, data que marca o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Apesar do ataque, afirmou que não se sente intimidado e que a resposta será coletiva, por meio da mobilização da comunidade e da busca por justiça, dentro da legalidade.
O caso foi registrado na Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin) na tarde desta segunda-feira (19). Em nota, a Polícia Civil informou que investiga a ocorrência como crimes de dano e intolerância religiosa. Segundo a corporação, além das pichações, um equipamento eletrônico do templo foi danificado. Diligências estão em andamento para identificar a autoria.
A Polícia Civil reforçou que denúncias de racismo e intolerância religiosa podem ser feitas pelo site delegaciavirtual.sinesp.gov.br/portal ou diretamente na Decrin, localizada no Engenho Velho de Brotas.
Em nota de repúdio, a Frente Nacional Makota Valdina, em conjunto com o terreiro, classificou o ataque como racismo religioso e crime de ódio. O documento afirma que as pichações violam a liberdade religiosa e a dignidade das religiões de matriz africana, e cobra a identificação e punição dos responsáveis, com base no Estatuto da Igualdade Racial e na Constituição Federal. Leia nota na íntegra:
“A Frente Nacional Makota Valdina juntamente com o terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza na representação do sacerdote Tata Mutá Imê vem a público manifestar seu mais veemente repúdio ao ato de racismo religioso e intolerância ocorrido no último sábado, quando as paredes de entrada de nosso espaço sagrado foram pichadas por supostos evangélicos* com as palavras “Assassinos” e “Jesus”.
Tal ação não é apenas uma ofensa à nossa comunidade religiosa, mas configura um ataque direto à liberdade de crença, ao direito constitucional de culto e à dignidade das religiões de matriz africana. Trata-se de um crime motivado por ódio religioso, que reforça estigmas, incita a violência simbólica e perpetua o racismo estrutural historicamente imposto aos nossos povos.
Ressaltamos que o Estatuto da Igualdade Racial do município, assim como a Constituição Federal, repudiam e combatem atos de discriminação e intolerância religiosa, assegurando a todas e todos o direito ao livre exercício de sua fé, sem perseguições ou ataques.
Diante disso, exigimos que os responsáveis sejam identificados e punidos conforme a lei, e que as autoridades competentes tomem as providências necessárias para garantir a segurança, o respeito e a justiça”.
As investigações seguem em curso e, até o momento, ninguém foi preso.