O momento do Brasil no Oscar

Foto de Vitor Velloso Vitor Velloso 22/01/2026, às 18h10 - Atualizado às 18h11

“O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, fez história ao receber quatro indicações ao Oscar, igualando o recorde de “Cidade de Deus” (2004), de Fernando Meirelles. O longa concorre nas categorias de melhor casting, que reconhece a direção de elenco; melhor filme internacional, destinado ao melhor filme em língua não inglesa; melhor ator, com Wagner Moura; e melhor filme, o principal prêmio da cerimônia concedido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

A trajetória de destaque do filme começa com sua seleção para a Mostra Oficial do Festival de Cannes, na França. Na competição, “O Agente Secreto” conquistou os prêmios de Melhor Diretor, para Kleber Mendonça Filho, e Melhor Ator, para Wagner Moura. Além dos troféus oficiais, o longa também recebeu o Prêmio FIPRESCI, concedido pela Federação Internacional de Críticos de Cinema, e o Prix des Cinémas d’Art et Essai, atribuído pela Associação Francesa de Cinemas de Arte e Ensaio (AFCAE).

O reconhecimento em Cannes teve caráter histórico. Até então, o Brasil nunca havia vencido o prêmio de Melhor Ator no festival e só havia conquistado o de Melhor Diretor uma única vez, em 1969, com o baiano Glauber Rocha, por “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. “O Agente Secreto” também disputou a Palma de Ouro, o principal prêmio do festival, vencido pelo Brasil apenas em 1962, com “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, filmado quase integralmente na Igreja do Passo, no bairro de Santo Antônio Além do Carmo.

Após a forte repercussão em Cannes, o filme iniciou uma ampla circulação internacional, acumulando prêmios, indicações e contratos de distribuição. O anúncio de que a empresa norte-americana Neon ficaria responsável pela distribuição comercial do longa nos Estados Unidos ampliou as expectativas em torno de suas chances no Oscar, já que a presença de uma distribuidora em território estadunidense é decisiva para garantir visibilidade e acesso ao filme junto à Academia.

Com o início da chamada “campanha” ao Oscar, tornou-se estratégico que o longa percorresse um circuito específico de festivais para ampliar sua projeção internacional, movimento confirmado com a exibição no Festival de Telluride, no Colorado, considerado um dos principais “termômetros” da premiação. Nesse período, porém, uma polêmica marcou o anúncio do representante brasileiro: o filme “Manas”, de Marina Brennand, ganhava grande repercussão nas redes sociais, intensificando a pressão sobre a Academia Brasileira de Cinema. Em uma live transmitida no YouTube, marcada por momentos constrangedores e questionamentos de alguns membros sobre a atuação da imprensa, a produtora Sara Silveira, integrante do comitê responsável pela escolha do representante brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Internacional, afirmou: “Imprensa, aí está o que tanto queriam”.

Apesar do desgaste público em torno da cerimônia de anúncio, a escolha se mostrou acertada ao compreender a importância de dar continuidade à repercussão internacional do cinema brasileiro, impulsionada pelas indicações e pelo prêmio de “Ainda Estou Aqui” em 2025, além da intensa mobilização do público brasileiro nas redes sociais.

Em 2026, o Brasil não apenas repete o feito de ser indicado às categorias de melhor filme internacional e melhor filme, como também alcança, de forma inédita, a indicação a melhor ator, com Wagner Moura, e a melhor casting. O país volta, assim, a fazer história no Oscar e reafirma a força de um cinema marcado por grandes narrativas, dentro e fora das telas, como demonstra a ampla repercussão em torno de Tânia Maria, cuja interpretação cativante de Dona Sebastiana em “O Agente Secreto” conquistou público e crítica.

Vale destacar ainda a indicação de Adolpho Veloso ao prêmio de Melhor Fotografia, por seu trabalho em “Sonhos de Trem”, produção da Netflix dirigida por Clint Bentley, que se consolidou como um dos grandes destaques técnicos da temporada. O cinematógrafo brasileiro já havia assinado a direção de fotografia de “Tungstênio” (2018), de Heitor Dhalia, baseado no quadrinho de Marcello Quintanilha e rodado em Salvador, reforçando a presença brasileira em áreas-chave da produção cinematográfica internacional.

Até o Globo de Ouro, realizado em 11 de janeiro, a principal aposta de “O Agente Secreto” recaía sobre a categoria de Melhor Ator. No entanto, após a premiação, em que o filme saiu vencedor como Melhor Filme em Língua Não Inglesa, as chances do Brasil conquistar o Oscar de melhor filme internacional se ampliaram. Ainda assim, o longa enfrenta concorrência direta de “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi, e de “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, ambos fortes candidatos na disputa, sendo este último também distribuído pela Neon.

O percurso de “O Agente Secreto” impõe uma conquista expressiva para o cinema brasileiro. O filme consolida um momento (cada vez menos) raro de visibilidade internacional e amplia a presença do Brasil no centro das grandes disputas do cinema contemporâneo.