“Enquadrar no cinema é sempre um processo de exclusão e não de inclusão.”
A afirmação não é minha, mas de Ruy Guerra, figura central da cinematografia brasileira, proferida no documentário “Um Filme de Cinema”, de Walter Carvalho. Trata-se de uma percepção irretocável. Afinal, como Jean-Luc Godard já sugeria em 1959, o “travelling é uma questão de moral”. Ao analisar, em 1960, o filme “Kapò” (1959), de Gillo Pontecorvo, Jacques Rivette refletiu sobre o movimento de câmera que se aproxima do cadáver de uma mulher judia em um campo de concentração; naquela análise, Rivette expôs a dimensão ética que habita o olhar técnico.
O travelling é o movimento em que a câmera se desloca fisicamente pelo espaço. Diferente de uma panorâmica, em que a câmera apenas gira sobre o seu próprio eixo — como se fosse alguém virando o pescoço para os lados —, no travelling o equipamento inteiro viaja de um ponto a outro. É como se a câmera ganhasse pernas e caminhasse junto com a cena.
Qualquer produção artística é inerentemente política. O ato de filmar, sendo exclusão, é político. Mover a câmera é decidir excluir e incluir (à medida que há o avanço ou recuo) em movimento.
Na prática, o cinema funciona como uma engrenagem que dificilmente gira sem o impulso do Estado. Produzir um filme é uma operação de alto custo e risco, o que torna a sétima arte dependente de políticas públicas para existir. Isso acontece de diversas formas: seja pelo investimento direto de recursos em editais de fomento, seja por mecanismos indiretos, como a isenção de impostos e incentivos fiscais que estimulam empresas privadas a injetar dinheiro na cultura. Aliás, aqueles que reclamam da alta participação do Estado na produção cinematográfica brasileira deveriam checar a participação e a influência direta do cinema de Hollywood…
Em 1968, o Festival de Cannes foi interrompido pelos cineastas, que prestaram apoio às manifestações daquele ano. Em 2022, o Festival de Cannes decidiu exibir um discurso, evidentemente político, de Zelensky, líder ucraniano. A escolha dos locais onde são sediados os festivais de cinema é feita com base em questões de política pública, especialmente por secretarias e ministérios de Turismo e Cultura. Ou seja: cinema é político.
Pois bem, o Festival de Berlim, um dos eventos internacionais de cinema mais importantes do mundo — produzido de forma direta ou indireta pelo Estado alemão e que recebe representantes do mercado internacional de todo o planeta, representando nações e Estados —, protagonizou um dos debates mais estranhos à cultura cinematográfica. Wim Wenders, importante cineasta alemão que dirigiu “Asas do Desejo” (1987), obra que possui fortes questões políticas, veio a público dizer que o cinema “é o oposto de política” e que o Festival não deveria se envolver com esses assuntos. Ora, o absurdo está posto.
Imediatamente, diversas reações de figuras públicas começaram a circular nos principais veículos de imprensa. A escritora indiana Arundhati Roy cancelou sua ida ao festival após se dizer “enojada” com a fala de Wenders. Diversos artistas assinaram uma carta aberta contra a declaração do cineasta e pediram por um posicionamento do evento sobre a situação em Gaza. A carta possui a assinatura de figuras como Tilda Swinton, Javier Bardem, Fernando Meirelles, Kleber Mendonça Filho etc.
Pouco depois, o ministro da Cultura da Alemanha, Wolfram Weimer, cogitou a demissão da diretora do Festival Internacional de Cinema de Berlim, Tricia Tuttle. A informação foi divulgada pelo jornal alemão Bild na quarta-feira, 25 de fevereiro, com base em relatos de funcionários da organização que administra o evento no município. Naquele período, o Ministério da Cultura confirmou que o ministro convocaria uma reunião extraordinária para tratar do tema, embora não tenha havido um anúncio oficial imediato sobre o desligamento de Tuttle.
Segundo o relato do periódico, Weimer e a diretora concordaram que a permanência dela à frente do festival era inviável. Essa conclusão ocorreu após a forte reação política gerada pelos discursos proferidos na cerimônia de premiação, no dia 22 de fevereiro. O jornal também destacou uma fotografia que comprometeu a credibilidade de Tuttle perante o governo alemão. O registro, datado de 15 de fevereiro, mostrou a gestora posando ao lado da equipe do filme Chronicles From a Siege (Crônicas de um cerco), do cineasta palestino-sírio Abdallah Alkhatib. Na imagem em questão, os integrantes da equipe do filme utilizaram o kufiya, lenço tradicional palestino, e uma pessoa segurou a bandeira da Palestina. Embora a diretora do festival não tenha portado nenhum símbolo, o Bild descreveu o episódio como um escândalo e uma peça de propaganda demonstrativa. O caso gerou um impasse, uma vez que o Estado é o principal financiador da estrutura que mantém o festival.
Somando à iracunda avalanche de polêmicas, Ethan Hawke — ator de sucessos como Sociedade dos Poetas Mortos, Dia de Treinamento, da aclamada trilogia Antes do Amanhecer e do indicado ao Oscar “Blue Moon” —, durante uma coletiva de imprensa, após ser perguntado sobre seu posicionamento diante de todas essas questões, respondeu em tom ofensivo ao jornalista que não defende a mesma “agenda” que ele, esquivando-se da questão central.
Bem, não vale entrar tanto no caos instalado por essas declarações e fugas de responsabilidade, mas vale questionar o nível de omissão de um presidente de júri de um dos festivais de cinema mais importantes do planeta ao não apenas se recusar a falar sobre uma questão central do mundo, como dizer que o cinema é “oposto à política”. É interessante mencionar que Wim Wenders fez parte de um contexto de produção cinematográfica conhecido como “Novo Cinema Alemão”, que, entre seus integrantes, também contava com Fassbinder e Werner Herzog, responsáveis por produzir obras sobre o contexto político, econômico e social da Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial.
Wim Wenders não perdeu a oportunidade de ficar calado, pois não há espaço para o silêncio diante de um cenário como este. No entanto, a fala foi tão infeliz, para não dizer covarde, que a suposta isenção já assume um lado explícito na política mundial.
O cinema é tão político que a declaração não deixa ninguém ileso, muito menos o próprio cinema e ao excluir, Wim Wenders prova que está errado.
Vitor Velloso