Dia dos Namorados: como demonstrar afeto para ficantes sem parecer “emocionado”?

Por Redação 29/05/2026, às 20h02 - Atualizado às 19h02

Por Sophia Souza*

Com a proximidade do Dia dos Namorados, flores, caixas de chocolate e declarações românticas começam a ocupar vitrines, timelines e conversas entre amigos. Mas, para além dos casais oficiais, a data também reacende uma dúvida cada vez mais comum entre jovens adultos: até onde vale demonstrar afeto para um ficante ou crush sem parecer “emocionado”?

Mandar mensagem primeiro, comprar um presente, fazer planos ou demonstrar interesse de forma mais explícita ainda gera desconforto para muitas pessoas. Em uma geração marcada por relações mais fluidas, redes sociais e códigos afetivos pouco definidos, a demonstração de carinho frequentemente parece caminhar entre dois extremos: o medo da frieza e o receio de parecer intenso demais.

Para Alexandre Paim, psicólogo clínico e especialista em análise do comportamento, não existe uma fórmula universal sobre o que seria “afeto demais” em uma relação. Segundo ele, o limite saudável depende dos acordos e da percepção das pessoas envolvidas. “O limite saudável varia de acordo com as pessoas que estão implicadas nessa relação. Tem a ver com os acordos, as vontades e as percepções das pessoas envolvidas”, explica.

Fatores culturais

Ainda assim, o especialista aponta que muitos dos bloqueios relacionados à demonstração emocional estão ligados a fatores culturais. Para ele, a sociedade ainda associa vulnerabilidade e expressão afetiva a características consideradas femininas e, historicamente, tudo que é associado ao feminino tende a ser tratado de forma constrangedora. “As pessoas são ensinadas a esconder ou mascarar seus sentimentos. Demonstrar interesse em uma relação é se comportar de uma forma que, patriarcalmente, é interpretada como feminina”, afirma.

Na prática, isso aparece em comportamentos cada vez mais comuns nas relações contemporâneas: esperar horas para responder mensagens, evitar demonstrar interesse primeiro ou tentar manter uma postura de desinteresse mesmo quando existe envolvimento emocional.

Ao mesmo tempo, Alexandre observa que as relações atuais também se tornaram mais flexíveis e menos definidas, o que pode aumentar a insegurança emocional de algumas pessoas. “A falta de um compromisso sério ou de regras acerca de um relacionamento pode influenciar na forma como as pessoas demonstram afeto. Para muitas pessoas, a ideia de um relacionamento sério representa segurança, estabilidade e conforto para se expressar”, afirma.

Os vínculos 

Essa indefinição dos vínculos, frequentemente chamados de “ficantes”, “contatinhos” ou “situationships” nas redes sociais, também muda a forma como presentes e demonstrações de carinho são interpretados. Um gesto romântico pode ser visto tanto como demonstração saudável de interesse quanto como excesso de expectativa emocional.

Para identificar se uma relação está emocionalmente saudável, Alexandre aponta que é importante observar reciprocidade, limites pessoais e os efeitos emocionais que os comportamentos do outro provocam. “O importante é estar consciente das próprias emoções e perceber o que as ações da outra pessoa provocam em você e o que as suas provocam nela”, conclui.

Entre flores, presentes e mensagens não respondidas, talvez o maior desafio das relações atuais não seja demonstrar afeto em excesso, mas aprender a demonstrá-lo sem transformar vulnerabilidade em motivo de vergonha.