Por Mirian Silva
Há derrotas que doem pelo placar. Outras machucam pelo que representam.
A eliminação do Brasil para a Noruega, por 2 a 1, neste domingo (5), pertence ao segundo grupo. O apito final não encerrou apenas mais uma campanha em Copa do Mundo. Ele interrompeu o sonho do hexa, encerrou expectativas de uma geração e reforçou a sensação de que a Seleção ainda busca reencontrar sua própria identidade no cenário mundial.
Quem cresceu vendo o Brasil entrar em campo como favorito talvez nunca tenha imaginado uma despedida tão precoce. Pela primeira vez desde a Copa do Mundo de 1990, a Seleção foi eliminada antes das quartas de final.
Naquele Mundial, disputado na Itália, a queda veio diante da Argentina. O Brasil dominou boa parte da partida, criou as melhores chances e chegou a acertar a trave com Dunga. Mas um lance de genialidade de Diego Maradona decidiu o confronto: aos 36 minutos do segundo tempo, o camisa 10 argentino passou por três marcadores e encontrou Claudio Caniggia livre para marcar o gol da classificação.
De lá para cá, o Brasil construiu uma trajetória de consistência em Copas do Mundo. Vieram o tetracampeonato em 1994, o vice em 1998 e o pentacampeonato em 2002. Depois disso, o país seguiu entre os protagonistas: quartas de final em 2006, 2010, 2018 e 2022, além do quarto lugar em 2014.
Desta vez, porém, o cenário foi diferente.
A derrota para a Noruega encerra uma sequência de nove Copas seguidas chegando, no mínimo, às quartas de final e amplia para seis edições o jejum de títulos. Desde 2002, o Brasil acumula frustrações que atravessam gerações, treinadores e estilos de jogo.
E talvez esteja justamente aí o ponto central.
Durante anos, as análises sobre o futebol brasileiro oscilaram entre trocas de nomes e ajustes pontuais. Mudaram-se técnicos, reformularam-se elencos, mas o padrão se repetiu. A cada ciclo, a promessa de reconstrução aparecia, e os velhos problemas voltavam com outra embalagem.
Contra a Noruega, essas fragilidades reapareceram.
O Brasil teve mais posse de bola, tentou controlar o ritmo e impôs sua técnica em alguns momentos. Mas esbarrou em limitações conhecidas: pouca intensidade sem a bola, lentidão na recomposição defensiva, falhas de posicionamento e dificuldade para transformar volume ofensivo em gols.
Em Copa do Mundo, detalhe não é detalhe.
Os gols sofridos nasceram de desatenções pontuais em momentos decisivos. No ataque, faltou precisão. E quando teve a chance de assumir o jogo emocionalmente, o Brasil deixou a partida escapar.
O pênalti desperdiçado foi um desses pontos de virada. Mais do que o erro em si, ele mudou o clima do jogo: devolveu confiança à Noruega e aumentou a ansiedade brasileira em campo.
No meio desse cenário, Neymar viveu o que pode ter sido seu último capítulo em Copas do Mundo.
O camisa 10 tentou conduzir a equipe, participou das principais ações ofensivas e assumiu responsabilidades em diferentes momentos. Mesmo cercado por críticas ao longo do ciclo, entrou em campo como referência técnica.
Não decidiu o jogo, mas também não se escondeu dele.
A eliminação, porém, vai além de nomes individuais.
Ela expõe um problema coletivo que se repete: a dificuldade do Brasil em transformar talento em organização, posse de bola em controle real de jogo, e momentos de pressão em respostas consistentes.
Enquanto outras seleções evoluíram taticamente, ganharam intensidade e variação de jogo, o Brasil manteve a aposta de que o talento individual bastaria para resolver o que o coletivo não sustenta.
A camisa segue pesada. As cinco estrelas continuam no peito. Mas, em campo, elas não entram em jogo.
O desafio para o próximo ciclo não será apenas revelar novos craques. Será recuperar uma identidade de jogo, formar um time competitivo e entender que a história, por mais gloriosa que seja, não vence partidas.
Agora resta esperar 2030.
Porque o torcedor brasileiro faz isso como ninguém: sofre, promete que não vai mais acreditar e, quando a bola volta a rolar, encontra um jeito de sonhar outra vez.