Por Mirian Silva
A oposta Tiffany Abreu, do Osasco, se pronunciou neste sábado (15) pela primeira vez após a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) anunciar a adoção de uma nova política de elegibilidade para as competições femininas. A jogadora falou após a derrota do Osasco por 3 sets a 2 para o Pinheiros, na estreia do Campeonato Paulista.
Apesar da nova determinação da CBV, Tiffany está liberada para disputar o Campeonato Paulista. A Federação Paulista de Voleibol (FPV) informou que o Estadual já havia começado quando a política foi anunciada e, por isso, a competição segue as regras anteriores.
Em quadra, Tiffany recebeu apoio da torcida do Osasco e das companheiras de equipe. Seu nome foi gritado em diferentes momentos da partida, enquanto torcedores exibiram cartazes e leques coloridos nas arquibancadas.
Após o jogo, a atleta criticou a decisão da CBV e afirmou que a medida afeta não apenas sua carreira, mas também outras pessoas envolvidas com o esporte.
“O voleibol é minha vida, meu trabalho. A CBV está tirando de mim tudo o que eu tenho, que é o amor pelo voleibol e a profissão que venho exercendo todos esses anos. São 10 anos no voleibol. Não comecei ontem. Isso não afeta somente a mim. Afeta meu clube, a torcida, patrocinadores, as pessoas que se inspiram em mim, o direito de todas as pessoas trans”, declarou.
Tiffany também classificou a mudança como um retrocesso e questionou os critérios utilizados para definir a participação de atletas na categoria feminina.
“É um enorme retrocesso na luta pelo reconhecimento e inclusão de todas as pessoas no esporte. Voltamos para uma forma vexatória, como se testavam as atletas nos anos 60 e 70. Estamos em 2026. Não podemos ter esse retrocesso jamais.”
A jogadora ainda afirmou que pretende recorrer às medidas cabíveis para contestar a decisão.
“Não vou me calar. E vou tomar todas as medidas possíveis para que minha luta pelo direito, visibilidade, inclusão e prática do esporte não tenham sido em vão. Meus 10 anos não foram em vão e vou lutar por eles e por todos vocês.”
Na sexta-feira (14), a CBV anunciou que passará a adotar, em suas competições nacionais de quadra e praia, os critérios da política do Comitê Olímpico Internacional (COI) para elegibilidade na categoria feminina.
A nova regra estabelece que as atletas deverão apresentar teste genético com resultado negativo para o gene SRY, associado ao desenvolvimento masculino.
Os critérios serão aplicados a partir da temporada 2026/27 da Superliga A e B, além da Supercopa 2026, Copa Brasil 2027 e competições nacionais de vôlei de praia previstas para 2027.
A CBV informou que a recusa em realizar a triagem não será considerada infração disciplinar. No entanto, atletas que não comprovarem a elegibilidade ficarão impedidas de disputar as competições abrangidas pela nova política.
Tiffany segue no Paulista
A situação de Tiffany no Campeonato Paulista foi esclarecida pela Federação Paulista de Voleibol. Como a nova política da CBV foi publicada após o início do Estadual, a FPV decidiu manter as regras que já estavam em vigor quando a competição começou.
Com isso, Tiffany está autorizada a defender o Osasco na atual edição do Paulista.
Aos 41 anos, a jogadora construiu uma trajetória pioneira no vôlei brasileiro. Em 2017, recebeu autorização da Federação Internacional de Voleibol (FIVB) para atuar em competições femininas e se tornou a primeira mulher trans a disputar uma partida da Superliga Feminina.
Desde 2021 no Osasco, Tiffany conquistou a Superliga, a Copa Brasil e o Campeonato Paulista na temporada 2024/25, tornando-se a primeira atleta trans campeã da Superliga Feminina.