Arquiteto é o primeiro colocado geral em concurso do BNDES e defende política de cotas: “Uma dívida histórica”

Por Redação 30/03/2025, às 21h06 - Atualizado às 20h59

Tiago Coutinho da Silva, de 29 anos, protagonizou um momento marcante durante o lançamento de um edital do BNDES voltado à criação de um museu a céu aberto na Pequena África, no Rio de Janeiro. Sem saber da surpresa preparada, o arquiteto foi chamado ao palco, ao lado dos pais e da esposa, e descobriu ali que, além de ter sido aprovado em primeiro lugar entre os candidatos cotistas, também obteve a maior nota geral no concurso nacional do banco.

“Não esperava. É mais fácil fazer uma prova do que falar diante de tanta gente”, brincou Tiago, emocionado, ao receber os aplausos do público e dividir o palco com as ministras Anielle Franco (Igualdade Racial), Macaé Evaristo (Direitos Humanos) e Margareth Menezes (Cultura).

Tiago concorreu por meio das cotas raciais no certame realizado em 2023, após 12 anos sem concurso no BNDES. Ele disputava uma das duas vagas para a área de arquitetura e urbanismo, a mais concorrida do edital, com 2.362 inscritos. O jovem atingiu 110,6 pontos, de um total possível de 120 — desempenho superior, inclusive, ao de um teste feito com a inteligência artificial ChatGPT, que obteve 82 pontos.

Cotas e mérito: “É uma dívida histórica”

Embora tenha superado todos os concorrentes, Tiago reafirma a importância das cotas como ferramenta de correção das desigualdades sociais e raciais.

“As cotas são uma forma de reparação. Historicamente, os brancos receberam terra, oportunidades, estrutura. Nós, negros, seguimos enfrentando barreiras. As cotas não tiram o mérito de ninguém, elas tentam nivelar um campo que sempre foi desigual”, afirmou o arquiteto, que vive em Niterói, na região metropolitana do Rio.

O jovem também reconhece a importância de ter estudado em instituições públicas de qualidade, como o Instituto de Aplicação da Uerj (CAp-UERJ) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele começou a se preparar para concursos em 2020, e agora comemora a aprovação com o apoio da família.

Concurso histórico

O concurso do BNDES atraiu 42.767 candidatos de todo o país para 150 vagas imediatas. O salário inicial oferecido é de R$ 21.869,76. Esta edição foi a primeira a reservar 30% das vagas para candidatos negros — acima do mínimo legal de 20% previsto na Lei nº 12.990/2014.

Para a diretora de Pessoas, Gestão e Operações do BNDES, Helena Tenório, o resultado de Tiago é um exemplo concreto de como as ações afirmativas funcionam.

“O sistema de cotas dá certo. Ter o primeiro lugar geral vindo de um candidato cotista mostra que a diversidade só fortalece as instituições”, afirmou.

Avanço legislativo

Além da legislação já em vigor para concursos públicos, tramita no Congresso o Projeto de Lei nº 1958/2021, que propõe ampliar o percentual de cotas para negros de 20% para 30%. No ensino superior, a atualização da Lei de Cotas (Lei 12.711/12) aprovada no fim de 2023 estabelece critérios mais dinâmicos para definição das reservas de vagas, com base em dados atualizados da população.

A trajetória de Tiago, que será agora colega de muitos nomes experientes no BNDES, é vista como um marco de representatividade, mas também como reflexo de um processo de construção coletiva — baseado em acesso à educação pública, apoio familiar e políticas de inclusão.

“É uma conquista pessoal, mas que representa muita gente. Que mais pessoas possam se ver nesse lugar”, resume o arquiteto.