O resultado do Concurso Público Nacional Unificado (CNU) trouxe uma celebração em dobro para a etnia Pankararu e para a etnia Atikum-Umã. Três membros da mesma família foram aprovados para atuar na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai): Francisco de Assis, sua esposa Daiana dos Santos e sua irmã Elisângela de Assis.
A conquista tem um significado especial. Pela primeira vez, um concurso da Funai contou com reserva de vagas para indígenas, garantindo maior representatividade dentro do órgão. Do total de 502 vagas ofertadas, 30% foram destinadas a candidatos indígenas, resultando em 9.339 inscritos na disputa pelas posições.
Francisco de Assis ficou em primeiro lugar na categoria indigenista especializado – engenheiro agrônomo. Atualmente extensionista rural e doutorando, ele vê a aprovação como uma oportunidade para fortalecer a atuação da Funai e contribuir diretamente para a defesa dos direitos indígenas.
A esposa de Francisco, Daiana dos Santos, foi aprovada na 43ª posição para indigenista especializado – qualquer área do conhecimento. Bacharel em enfermagem e especialista em saúde indígena, ela acredita que seu trabalho poderá suprir a carência de profissionais capacitados em diversas comunidades.
Já a irmã, Elisângela de Assis, conquistou o 5º lugar na mesma área de Francisco e ressalta que sua trajetória acadêmica foi essencial para o sucesso no concurso. Bacharel em engenharia agronômica, ela reforça que atuar na Funai é um compromisso com a preservação dos territórios e culturas indígenas.
Agora, a família aguarda a convocação e espera que os três possam ser lotados em locais próximos à aldeia e aos seus familiares.
A Funai está passando por um processo de reestruturação após perder capacidade de atuação nos últimos anos. Desde 2023, um Grupo de Trabalho (GT) composto por servidores do órgão, representantes do Ministério dos Povos Indígenas, organizações indígenas e sindicatos, está desenvolvendo estratégias para fortalecer a instituição e melhorar a assistência às comunidades.
A reserva de vagas para indígenas no CNU é um passo importante para essa transformação, permitindo que profissionais das próprias comunidades participem das decisões e implementem políticas mais eficazes.
Entre os candidatos que ficaram no cadastro reserva, a expectativa é grande. O nutricionista Ezaul Santos, da etnia Nukini, ficou em 57º lugar na categoria indigenista especializado – qualquer área do conhecimento e defende a ampliação das contratações.
Para ele, a inclusão de mais indígenas na Funai permitirá um atendimento mais eficiente, já que os aprovados conhecem as realidades de suas aldeias e podem atuar com maior propriedade nas demandas locais. “Com certeza está entrando uma galera muito capacitada, que teve que sair das suas aldeias para estudar e que agora poderá devolver esse conhecimento ao serviço público federal”, afirma.
Os candidatos do cadastro reserva estão se mobilizando para que novas convocações sejam feitas, argumentando que as vagas iniciais não são suficientes para atender à demanda atual da Funai.
A aprovação da família de Francisco e a entrada de outros indígenas no órgão demonstram que políticas afirmativas podem garantir a inclusão e fortalecer instituições que trabalham diretamente com populações tradicionais. A Funai, que há 56 anos tem a missão de garantir os direitos dos povos indígenas, agora contará com mais profissionais que vivenciam diariamente essa realidade.