Imóveis crescem mais que a população nas cidades brasileiras, aponta estudo da WRI Brasil

Por Redação 27/03/2025, às 21h33 - Atualizado às 16h31

O crescimento do volume de construções nas cidades brasileiras tem superado o aumento da população, segundo um estudo inédito divulgado nesta quarta-feira (26) pela WRI Brasil. A pesquisa, que analisou dados entre 1993 e 2020, revela uma transformação profunda na forma como os centros urbanos estão se expandindo — com destaque para o avanço da verticalização nas grandes cidades e o espraiamento nas médias e pequenas.

A partir de dados demográficos, de uso do solo e de mapeamento urbano, o levantamento mostra que capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre concentraram o maior crescimento vertical no período analisado. Segundo Henrique Evers, gerente de Desenvolvimento Urbano da WRI, o adensamento pode ser positivo, desde que bem planejado.

“Cidades mais compactas facilitam o acesso da população às oportunidades urbanas e podem oferecer padrões de mobilidade mais eficientes, reduzindo o consumo de energia e as emissões de poluentes”, destacou Evers.

Apesar disso, o aumento no volume de edificações nessas metrópoles ocorreu em um ritmo descolado do crescimento populacional. Em alguns casos, houve até estagnação ou queda na população, o que sugere que parte das construções esteja voltada mais para a especulação imobiliária do que para atender a demandas habitacionais reais.

Espraiamento em cidades menores

O estudo também mostrou que o cenário é diferente nas cidades médias e pequenas, como Campo Grande, Cuiabá, Natal, Manaus, Palmas e Teresina. Nesses locais, o crescimento ocorreu de forma horizontal, com maior dispersão territorial e baixa densidade populacional — uma forma de expansão que pode aumentar custos com infraestrutura urbana e impactar negativamente o meio ambiente.

Os pesquisadores classificaram as cidades em três grupos principais:

  • Grandes (mais de 1 milhão de habitantes): 22 concentrações urbanas (12% do total), com predominância de crescimento vertical;
  • Médias (entre 500 mil e 1 milhão): 20 concentrações (11%), com crescimento mais misto;
  • Pequenas (menos de 500 mil): 143 cidades (77%), com expansão majoritariamente horizontal.

Especulação e desafios climáticos

Para Guilherme Iablonovski, cientista de dados da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, os dados evidenciam o impacto da chamada financeirização do espaço urbano. “Há uma construção que não responde necessariamente a uma demanda habitacional, mas a interesses do mercado, o que acaba gerando imóveis vazios e ineficiência no uso do solo”, explicou.

O estudo alerta ainda para a necessidade de políticas públicas que orientem o crescimento urbano de forma mais sustentável, com foco em justiça social, acesso à moradia, infraestrutura e combate às mudanças climáticas.

“Há uma ligação direta entre o modelo de expansão das cidades e a crise climática, tanto na mitigação das emissões quanto na adaptação para cidades mais resilientes”, concluiu Henrique Evers.

Com quase três décadas de dados analisados, a pesquisa fornece insumos para que gestores públicos, urbanistas e acadêmicos repensem a forma como as cidades brasileiras vêm sendo ocupadas.