Levantamento revela que mais de 2,3 mil veículos jornalísticos desapareceram no Brasil desde 2014

Por Redação 14/03/2025, às 06h06 - Atualizado 13/03/2025 às 19h17

Um estudo realizado pelo projeto Mais pelo Jornalismo (MPJ) revelou que 2.352 veículos jornalísticos foram extintos no Brasil nos últimos dez anos. O levantamento mostra que, nesse período, 13.147 mídias — entre jornais impressos, rádios, TVs e portais — tiveram suas atividades encerradas, enquanto 10.795 novos veículos foram criados, resultando em um saldo negativo.

A pesquisa foi baseada no cadastro da plataforma de mailings de imprensa I’Max, que também idealizou e financia o MPJ. Além disso, foram analisados dados de veículos impressos e rádios em municípios com até 100 mil habitantes. Entre as 2,4 mil estações de rádio avaliadas, 52% não possuíam portais de notícias. Já entre os 1.000 veículos impressos analisados, 21% não tinham site próprio.

A CEO da I’Max, Fernanda Lara, destaca que a crise do setor atinge grandes e pequenas mídias, especialmente veículos tradicionais que não conseguiram se adaptar às novas formas de consumo de informação.

“Estamos falando de mídias centenárias, que representavam grandes cidades e foram descontinuadas. O jornalismo passou por uma transformação digital profunda, e muitas empresas não conseguiram acompanhar as mudanças no modelo de negócios”, explicou.

O estudo também identificou que o período da pandemia de Covid-19 foi um fator determinante para a queda no número de veículos jornalísticos. Os anos de 2021 e 2022 foram os mais críticos, com uma perda expressiva de mídias. Apesar de uma recuperação nos últimos dois anos (2023 e 2024), o saldo acumulado ainda é alarmante.

“Mesmo com um novo fôlego, ainda temos um déficit expressivo. Em 2020, o saldo negativo estava em 1.429, e agora já supera 2.300 veículos extintos”, afirmou Fernanda.

A pesquisa aponta que a criação de novos veículos de comunicação ocorre principalmente no ambiente digital, onde jornalistas independentes criam seus próprios meios, assumindo o papel de news influencers e especialistas em temas específicos. No entanto, a falta de financiamento ainda representa um grande desafio.

“A sustentabilidade financeira dessas novas mídias ainda é um problema. Criar um veículo é viável, mas garantir publicidade séria e sustentável a longo prazo é outra história”, ressalta Fernanda.

A jornalista e pesquisadora da ECA/USP, Claudia Nonato, aponta que houve uma migração massiva de jornalistas dos meios tradicionais para as plataformas digitais nas últimas décadas. Inicialmente, esses profissionais se dividiram entre o jornalismo impresso, rádio e TV e o digital, mas a maior parte da verba publicitária migrou para o ambiente online, impactando a sobrevivência dos veículos tradicionais.

“Os jornais impressos encolheram, enquanto rádios e veículos digitais se expandiram. Blogs, sites e plataformas online se tornaram muito mais atraentes para os jornalistas, que passaram a criar suas próprias mídias”, afirmou Claudia.

Apesar da crise no setor, há pontos positivos, como o crescimento de rádios comunitárias e a expansão do jornalismo local, além da redução de 9,5% no número de municípios considerados ‘desertos de notícias’ segundo o Atlas da Notícia.

Por outro lado, a especialista alerta que o consumo de informação mudou, favorecendo a difusão da desinformação, que afeta tanto a sociedade quanto o próprio jornalismo.

“O profissional precisou se reinventar: deixou de atuar apenas com a escrita e passou a desempenhar múltiplas funções. As redações foram reduzidas, o trabalho remoto se tornou comum e os salários diminuíram”, explicou.

Os grandes veículos de comunicação continuam dominando o setor, enquanto os pequenos tentam sobreviver por meio de apoios institucionais, vaquinhas virtuais e editais públicos.

As plataformas digitais, como Meta e Google, enxergaram oportunidade de investimento no jornalismo independente, oferecendo apoio financeiro em troca de dados e conteúdo jornalístico.

“Diante das dificuldades, qualquer iniciativa que apoie o financiamento do jornalismo é bem-vinda. A sobrevivência dessas mídias depende de novas estratégias para garantir sustentabilidade e independência”, concluiu Claudia.