Saiba quais são as críticas do mercado à alta do IOF sobre fundos no exterior

Por Redação 06/06/2025, às 00h09 - Atualizado 05/06/2025 às 17h05

O aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) anunciado pelo governo federal gerou forte reação negativa no mercado financeiro. A medida, que elevava de 0% para 3,5% a alíquota de IOF sobre investimentos de fundos brasileiros sediados no exterior, foi vista como um sinal de possível controle sobre o fluxo de capitais — ainda que o texto do decreto não previsse isso explicitamente. Diante da repercussão, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, recuou poucas horas após o anúncio.

A iniciativa foi apresentada pelo Ministério da Fazenda como um esforço para uniformizar a tributação entre pessoas físicas e jurídicas e contribuir com a meta fiscal definida no novo arcabouço. “As mudanças somam esforços para o equilíbrio fiscal, focando na uniformização e correção de distorções”, informou a pasta.

Apesar da justificativa técnica, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, expressou preocupação com a percepção de que o Brasil estaria retomando mecanismos de controle de capitais — instrumento utilizado por governos para regular a entrada e saída de recursos do país, especialmente os de origem especulativa.

Controle de capitais: risco ou estratégia?

Segundo o economista Pedro Faria, o controle de capitais é comumente aplicado para limitar operações de curtíssimo prazo que visam apenas o lucro imediato, sem gerar investimento produtivo. “É um mecanismo para desencorajar movimentações voláteis e proteger a estabilidade econômica”, explicou.

Na prática, esse tipo de medida pode impactar o câmbio. Faria cita como exemplo o fim da obrigatoriedade de repatriação de receitas de exportação, adotado no governo anterior. A medida reduziu a demanda por reais, desvalorizando a moeda e, por consequência, pressionando a inflação e os juros.

O professor Elias Jabbour, da UERJ, reforça a importância do controle de capitais como ferramenta de estabilidade monetária. “Quando o fluxo é livre, o dólar varia demais e isso desorganiza o planejamento de investidores e a política de juros. O controle reduz essa volatilidade e permite decisões mais consistentes de política econômica”, afirma.

Reação do mercado e recuo do governo

Empresas gestoras de ativos e fundos de investimento, que compõem o núcleo do mercado financeiro, rejeitaram duramente a medida. A reação foi imediata no Congresso, que cobrou do governo alternativas para compensar a arrecadação sem afetar áreas como saúde, educação e assistência social.

A crítica central do mercado é que qualquer restrição ao fluxo de capitais ameaça a liberdade de operação dos investidores, especialmente no segmento de câmbio e especulação de curto prazo. “O mercado financeiro lucra com a volatilidade, com as compras e vendas rápidas de dólar e real. Restringir isso significa cortar oportunidades de ganhos fáceis”, analisa Jabbour.

Pedro Faria compara a reação do mercado à de motoristas contrariados por limites de velocidade: “Não gostam da restrição, mesmo que ela traga benefícios públicos evidentes no longo prazo”.

Política industrial em debate

Além da estabilidade financeira, o controle de capitais também é apontado por especialistas como instrumento para fomentar a industrialização. A China é o exemplo mais citado: o país asiático impõe regras que direcionam o capital estrangeiro para setores estratégicos da economia real.

“No Brasil, há o risco de que a abertura irrestrita do mercado transforme o país num paraíso fiscal de dimensões continentais”, alerta Jabbour. Segundo ele, medidas como o IOF elevado poderiam ajudar a induzir investimentos produtivos, em vez de movimentações puramente financeiras.

Hoje, o Brasil já exige registro e aplica tributação sobre a entrada de capital estrangeiro — uma forma branda de controle. Para Pedro Faria, no entanto, isso é insuficiente: “Temos uma taxa de câmbio muito instável. Precisamos de mecanismos que incentivem a permanência do capital no país e direcionem os investimentos para atividades de longo prazo”.

Com a terceira maior taxa de juros real do mundo, atrás apenas de Turquia e Rússia, o Brasil atrai investidores interessados no lucro rápido, mas em contrapartida trava o crescimento da economia. O Banco Central justifica a manutenção dos juros altos como forma de controlar a inflação — mas essa política, segundo os economistas, também é alimentada pela volatilidade provocada pela ausência de controle no fluxo de capitais.