A primeira infância é marcada por inúmeras descobertas e aquisições de habilidades pelos pequenos. Não só o campo motor (correr, pular, caminhar de costas), como também a linguagem e as habilidades sociais, fazem com que as crianças comecem a desenvolver autonomia e habilidade de autoconsciência. É o período que o bebê fofo e risonho fará a identificação de que é um indivíduo. Então, os cuidadores que, ao mesmo tempo admiram a crescente evolução de seus filhos, deparam-se com o tão falado “terrible two”.
Muitas mães no consultório me perguntam: vai passar? Estou fazendo alguma coisa de errado? Será que o meu filho tem algum problema de saúde? Para responder a estas perguntas é importante entender o que acontece com as crianças nesta idade e como lidar com elas. Mas o que é o “terrible two”, também conhecido como adolescência do bebê ou “os terríveis 2 anos”? É um período do desenvolvimento infantil que pode ocorrer entre 18 meses e 3 anos de idade marcado por birras, muitos “nãos” e um crescente desejo de autonomia por parte das crianças. Eu, sinceramente, sempre defendo as crianças deixando claro que de terrível elas nada têm e tento fazer com que os pais e mães entendam o que está se passando.
Imaginem como não deve ser difícil estar sentindo uma vontade, um desconforto, uma necessidade e não conseguir colocar em palavras o que precisa. Você querer vestir uma roupa ou fazer alguma tarefa e ter sempre alguém interferindo nas suas ações. Você estar cansado, com sono ou com fome e as pessoas não acolherem as suas necessidades. Pois bem, é exatamente assim que acontece com uma criança por volta de 2 anos: ela tem mais habilidade motora do que juízo, pois ainda não desenvolveram bem as noções de altura, de perigo e de cuidados consigo mesmas, estão cheia de energia, não conseguem elaborar a fala como precisariam para poder expressar o que estão sentindo e passam a sentir com mais concretude o distanciamento do seu adulto preferido (em muitas vezes, a mãe).
Qual o resultado disso tudo? “Não quero”, “não vou”, choro para tomar banho, jogam-se no chão quando contrariadas, não experimentam comidas novas. Os estudos mostram que as crianças afirmam sua independência pela manifestação de opiniões e escolhas próprias, de “teimosia” e “insistência”, assim como pela expressão de preferências ligadas a diversas áreas do desenvolvimento, como a alimentação, os cuidados pessoais e de higiene. Dessa forma, o ambiente familiar é de grande importância, pois é nele que a criança estabelece a relação com o mundo e com as pessoas, garantindo sua formação e qualidade de vida social, moral, psicológica e cultural. Seguem algumas dicas para enfrentar esta fase do desenvolvimento infantil:
– Tente ensinar a criança a NOMEAR o que está sentindo: quando o seu filho estiver chorando e você souber que ele está cansado, por exemplo, diga a ele: “eu sei que você está cansado, eu te entendo, quer vir para meu colo?” ou pergunte “você está chorando pois está cansado?”. Quando conversamos com as crianças, fazemos com que elas desenvolvam a habilidade da fala e é através desta habilidade que a criança será capaz de lidar melhor com situações de estresse;
– Quando a birra estiver no auge, não adiantará fazer muita coisa. É melhor esperar ela se acalmar para poder depois conversar, sempre olhando nos olhos e falando com tom calmo (uma dica é se abaixar para falar com a criança, ficando na mesma altura). É importante a criança saber que tem alguém que se preocupa com ela, mas precisamos mostrar que aquele tipo de comportamento não desorganiza o seu responsável;
– Tente não entrar na mesma “energia da birra”, ou seja, não grite junto com a criança, nem use de força física. Quanto mais usamos essas ferramentas de gritar ou bater, mais a criança aprende que é assim que se resolve os problemas;
– Desenvolva a autonomia supervisionada: a criança quer escovar os dentes sozinha? Combine com ela que primeiro ela escova e que depois você revisa;
– Não seja permissivo de maneira irresponsável. Uma criança menor de 2 anos quer comer um doce cheio de açúcar e sabemos que ela não pode. Quando dissermos não, ela talvez chore. Não podemos deixá-la comer apenas porque chorou. Devemos explicar o motivo do não e tentar tirar o foco daquela situação, acolhendo o seu choro;
– Evite o NÃO DESNECESSÁRIO, use a palavra não com sabedoria. Não é para ser usado quando for NÃO DE VERDADE. Não pode colocar o dedo na tomada, não pode pegar o produto de limpeza. Mas repense o não que não faz sentido como não deixar a criança brincar de massinha só porque vai sujar ou não deixar a criança tentar calçar seus sapatos sozinha;
– Tente oferecer duas opções para a criança, tanto para atividades simples como escolher roupas (assim não haverá imposição e a criança irá achar que está decidindo, lembrem-se que é o período de desenvolver autonomia), como para conseguir que a criança realize atividades que está criando dificuldade, por exemplo: você quer comer no prato azul ou no prato de ursinho? Você quer tomar banho com o shampoo do Hulk ou com o do Homem Aranha?
– Evite de todas as maneiras rotular na sua criança. As crianças não são teimosas ou choronas ou bagunceiras, elas eventualmente ficam de determinadas maneiras e precisam de acolhimento e ajuda para lidar com essas situações. Os rótulos aprisionam as pessoas e queremos crianças livres e felizes.
O desenvolvimento infantil é um contínuo com características especiais de cada fase. Precisamos nos capacitar para lidar com cada fase e ajudarmos a formar indivíduos que sabem lidar com suas emoções, frustrações. Uma das chaves para o desenvolvimento infantil saudável é ROTINA. Uma rotina organizada e estruturada, que respeita as necessidades da criança, reduz a ocorrência de birras e a ansiedade infantil.
Lis Thomazini