Educar é, sem dúvidas, a parte mais difícil de ter filhos. Não falo de educação formal que fica a cargo das escolas, mas a educação do dia a dia, do “bom dia”, “obrigado” e “por favor”. Educar para formar um indivíduo de bem, um ser humano funcional e de caráter exige um trabalho árduo, dedicação contínua e um desprendimento do nosso próprio “eu” para entendermos o funcionamento desde ser humaninho que está em formação. É preciso ter olhar atento para conhecer a criança de verdade, entender as suas características e necessidades.
A educação infantil mudou muito nos últimos anos. O mundo mudou. A tecnologia avançou. O acesso à informação facilitou. E, por sorte, aprendemos e entendemos que os tapas e gritos, antes tão populares e aceitos, trazem mais danos do que benefícios. As crianças aprendem muito mais através dos gestos e atitudes do que através de discursos bonitos e bem estruturados.
O cérebro infantil, ao ser exposto a alta carga de estresse (por exemplo, quando sofre agressão física ou verbal), sofre uma espécie de pane e passa a ser modulado com esses códigos: agressão resolve o problema, quem vence é quem grita mais. São códigos opostos ao que os pais querem ensinar e o problema atinge uma proporção ainda maior. A educação que precisamos buscar é a que gera apego seguro, espaço de fala e de escuta ativa. Se é fácil? Claro que não! Mas são estratégias que comprovadamente transformam nossos pequenos em verdadeiros cidadãos e permitem que cresçam em um ambiente repleto de respeito e amor.
Não confundam estas estratégias com permissividade. Esta pode ser tão danosa quanto a agressividade. Precisamos achar o caminho do meio. O adulto que educa precisa ter comando firme, mas isso só se conquista em um ambiente seguro. O comando firme não inclui gritos, mas um diálogo claro, simples, com olhos nos olhos e repleto de verdades (verdades nas palavras e nas atitudes). Abaixar-se para estar na mesma altura da criança ao falar é fundamental. Esta regra ultrapassa a primeira infância e se estende para além da adolescência. Como vocês acham que os adolescentes confiarão seus segredos aos seus pais se não se sentirem seguros e apoiados?
Frases como “eu sei que você está chateado” e “eu sei que você não gostou” demonstram que entendemos como as crianças se sentem, mas isso não invalida que “não podem pegar as coisas sem pedir emprestado” e “não podem usar o videogame durante a semana”. Explicar o porquê da negativa fortalece o comando e podemos dar exemplos das nossas vidas para que a criança entenda que não só com ela acontecem problemas. Não só elas se sentem frustradas. O tédio, a frustração, o ciúme e tantos outros sentimentos fazem parte da formação do indivíduo e cabe a nós adultos ajudarmos as crianças a aprenderem a lidar com eles.
Somos de outra geração, fomos criados de outra forma, mas precisamos acompanhar estas transformações e nos adequarmos a um mundo muito mais plural, diverso e acelerado para podermos educar nossos filhos e prepará-los para uma nova realidade. Gentiliza gera gentileza, reciprocidade gera reciprocidade. As crianças precisam ser respeitadas como indivíduos, precisam ser habilitadas para resolver os conflitos através do diálogo e precisam se sentir amadas. Podemos terminar com uma reflexão: você conhece seu filho de verdade?
Lis Thomazini