Feira dos refugiados

Foto de Vitor Velloso Vitor Velloso 05/02/2026, às 20h08 - Atualizado às 20h10

Afinal, como Sirāt (uma coprodução França e Espanha), de Óliver Laxe, pode nos ajudar a refletir sobre o jogo político da opinião pública na corrida pelo Oscar?

Há duas semanas, o diretor brincou sobre a crescente presença de filmes brasileiros na premiação norte-americana: “Há muitos brasileiros na Academia e nós os adoramos, mas eles são ultranacionalistas. Acho que se os brasileiros inscrevessem um sapato no Oscar, todos votariam nele”, disse no talk show La Revuelta.

A fala é provocativa, especialmente quando analisamos Sirāt com atenção, particularmente no que diz respeito à maneira como retrata a nacionalidade do local onde foi filmado. O filme narra a busca de um pai e seu filho pela filha e irmã desaparecida nos desertos do sul de Marrocos. A trama inicia em uma rave remota, onde distribuem fotos em busca de pistas, e se desenvolve à medida que se unem a um grupo de ravers que os conduz pelo deserto árido e desafiador. Sirāt teve sua estreia no Festival de Cannes 2025, onde conquistou o Prêmio do Júri, e figura entre as apostas da Espanha para o Oscar de Melhor Filme Internacional.

O filme oferece um retrato moralista que critica a humanidade e o hedonismo, uma filosofia que considera o prazer como o objetivo principal da vida. É nesse cenário que ocorre um dos raros diálogos que situam o deserto: uma personagem afirma: “Para o sul, perto da Mauritânia”. A declaração é notável, uma vez que Marrocos não compartilha uma fronteira com a Mauritânia. Em sua terceira obra na região, Laxe se familiariza com a história local. O filme considera os territórios ocupados do Saara Ocidental, antiga colônia espanhola deixada em 1975 e único território africano ainda não descolonizado, como parte de Marrocos. O deserto é tratado como uma extensão do território marroquino, o que justifica a fronteira mencionada.

É curioso que, apesar de a Espanha ser diretamente responsável pelos problemas no Saara Ocidental, a coprodução francesa e espanhola apresenta uma perspectiva quase ingênua do conflito. O passado do Saara Ocidental é extenso e intrincado. A princípio, a colonização espanhola restringiu-se ao litoral da colônia. A partir de 1934, dois elementos alteraram a situação: um pacto com a França demandava a proteção das fronteiras contra invasões de povos indígenas, resultando no envio de tropas espanholas para o interior; e boatos sobre vastas reservas de fosfato despertaram interesse estratégico.

A concepção do “Grande Marrocos” surgiu em 1950. Allal el-Fassi, líder do Istiqlal, partido marroquino de centro-direita, argumentava que o império deveria se expandir além das fronteiras atuais, englobando o Saara Ocidental, Mauritânia, enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla, além de regiões da Argélia e Mali — uma perspectiva ambiciosa que gerou os primeiros indícios de futuros conflitos.

A ONU começou a atuar em 1963, quando o Saara Espanhol foi adicionado à Declaração sobre a Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais. O povo saaraui deveria decidir seu destino por meio de um referendo — se tornar um Estado independente, associar-se à Espanha ou se unir ao país europeu. No entanto, os planos foram complicados por pressões políticas. Enquanto a ONU insistia na realização do plebiscito, Marrocos e Mauritânia disputavam a posse do território.

O referendo jamais ocorreu. Marrocos se opunha à inclusão da independência como opção. O rei Hassan II pediu à Espanha o adiamento da votação e, junto ao presidente da Mauritânia, Mohtar uld Dadá, solicitou à Corte Internacional de Justiça um parecer sobre os laços jurídicos do Saara. Em outubro de 1975, a CIJ concluiu que nem Marrocos nem Mauritânia tinham direito ao território, reafirmando que a Espanha deveria realizar o plebiscito de autodeterminação.

Entre 1981 e 1987, o conflito se militarizou. Marrocos construiu um extenso muro de areia e pedra, o The Berm, dividindo o Saara Ocidental: cerca de 85% a oeste, sob controle marroquino (Zonas Ocupadas), e aproximadamente 15% a leste, sob controle da Frente POLISARIO (Zonas Liberadas). Este muro aparece em uma das principais cenas do filme. Até hoje, o Saara Ocidental permanece um território marcado por disputas históricas, reivindicações internacionais e sonhos de autodeterminação.

Não há ingenuidade aqui. Laxe assume um lado: o exterior ao conflito, o espanhol, pela forma como o vê; e o marroquino, pela interpretação do mapa territorial. É um retrato exótico, próximo à maneira como ele define os “brasileiros ultranacionalistas”, de forma imprecisa e quase caricatural.

Por fim, é quase cômico que, ao se desculpar, o diretor tenha dito: “Era um programa radicalmente irônico e de humor, não nos levamos a sério”, reconhecendo que pode ter ofendido pessoas. Ele revela a mesma ingenuidade ou cinismo de seu filme. Agindo como os policiais no início de O Agente Secreto, que ignoram um cadáver à vista de todos, Laxe nos pede que deixemos de lado sua piada agridoce em nome de uma comicidade desleixada.

Mas seu pedido de desculpas é genuíno ou faz parte da campanha para o Oscar? Surge por livre e espontânea vontade ou “livre e espontânea pressão”? Perguntas que provavelmente jamais terão resposta, mas que ressoam com ecos históricos, políticos e geográficos que merecem atenção.

Referências:
BARROS, José Maria Sydow de. Saara Ocidental: história, atuação da ONU e interesses externos. Revista Brasileira de Estudos Africanos, Porto Alegre, v. 5, n. 10, p. 103-126, jul./dez. 2020.

Estrada, Rodrigo Duque. 2014. “Saara Ocidental: História, Geopolítica e Perspectivas da Última Colônia”. Cadernos de Relações Internacion ais, Rio de Janeiro, v. 7, n. 1. https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/ rev_cadri.php?strSecao=fasciculo&fas=26628&NrSec ao=11. . 2016.

Geopolítica e o conflito do Saara Ocidental: As rendas estratégi cas do reino marroquino e a fabricação de terroristas do deserto. Saara Ocidental, ano 40: História, estratégias e desafios para o futuro. https:// www.ritimo.org/Geopolitica-e-o-conflito-do-Saara-Ocidental.

Duarte, Geraldine Rosas. 2016. “O Papel da ONU no Conflito do Saara Oci dental”. Revista Conjuntura Austral, Porto Alegre, v. 7, n. 33-34, p.04 15. http://www.seer.ufrgs.br/index.php/ConjunturaAustral/article/ view/59898/36711