Quando a imagem mente: o perigo de confundir ressonância com diagnóstico

Foto de Fernando Santiago Fernando Santiago 16/03/2026, às 15h51 - Atualizado às 15h51

Durante décadas, a medicina e a sociedade aprenderam a olhar para exames de imagem como se fossem uma espécie de verdade objetiva sobre o corpo. A lógica parece simples: se a ressonância mostra uma alteração, ali está a causa da dor. O problema é que o corpo humano raramente se comporta de forma tão simplista.

Um estudo populacional recente publicado na PubMed Central analisou algo que deveria nos fazer repensar profundamente essa relação entre imagem e sintomas. Pesquisadores examinaram 602 adultos entre 41 e 76 anos, realizando ressonância magnética em ambos os ombros e avaliando cuidadosamente a presença de dor e limitação funcional. O resultado foi surpreendente: 99% das pessoas apresentavam alguma “anormalidade” no manguito rotador.

Isso significa que praticamente todo adulto acima dos 40 anos possui alguma alteração estrutural visível na ressonância. Tendinopatias, rupturas parciais ou degenerações estavam presentes em grande parte da população. No entanto, a maioria dessas pessoas não tinha dor.

Quando os pesquisadores compararam ombros dolorosos com ombros assintomáticos, o padrão foi ainda mais revelador. Alterações do manguito rotador apareciam em 96% dos ombros sem sintomas e em 98% dos ombros com sintomas. Em outras palavras, encontrar uma alteração na ressonância pouco ajudava a explicar quem tinha dor e quem não tinha.

Esses dados expõem um problema central na interpretação clínica dos exames de imagem: a presença de uma alteração não significa necessariamente que ela seja a causa do sintoma. Muitas dessas alterações provavelmente representam apenas processos naturais de envelhecimento do tecido, algo tão comum quanto rugas na pele ou cabelos brancos.

O problema surge quando a sociedade – e às vezes até a própria prática clínica – passa a tratar essas imagens como diagnósticos definitivos. O resultado pode ser uma cascata de intervenções: infiltrações, tratamentos direcionados à estrutura vista no exame e até cirurgias, mesmo quando não existe evidência clara de que aquela alteração seja responsável pela dor.

Os próprios autores do estudo argumentam que, diante de uma prevalência tão alta de alterações estruturais na população, o valor diagnóstico de uma ressonância isolada se torna limitado. Em termos práticos, isso significa que o exame positivo pode ser apenas um achado incidental, algo que estava ali independentemente da dor do paciente.

Talvez o maior ensinamento desse tipo de pesquisa seja um convite à humildade clínica. O corpo humano é um sistema complexo, e a dor raramente pode ser reduzida a uma única estrutura “danificada” visível em um exame. Interpretar uma imagem sem compreender o contexto funcional, clínico e humano do paciente é como tentar entender um livro lendo apenas uma palavra.

No fundo, o desafio não está na tecnologia dos exames, que é extraordinária, mas na forma como aprendemos a interpretá-los. O risco não é a ressonância mostrar demais, mas nós acreditarmos que ela explica tudo.

E talvez esteja aí uma provocação necessária para o nosso tempo: em uma sociedade fascinada por imagens, precisamos reaprender algo que a clínica sempre soube — o paciente continua sendo mais complexo do que o exame que o representa.