Muitos de vocês já devem ter recebido ou ouvido a história de um amigo que recebeu o diagnóstico de “virose” e não ficou muito satisfeito, achou que o médico não solicitou exames que supostamente deveriam ter sido solicitados e que o médico prescreveu apenas os remédios que já tinha em casa, nada “mais forte”.
Isso se torna ainda mais comum na infância, quando muitas famílias buscam os pronto-atendimentos infantis em busca de diagnóstico para os espirros, febres, tosses, dores abdominais de seus filhos e saem, muitas vezes, com o diagnóstico de “virose”. Vamos falar sobre isso?
A grande maioria das doenças infecciosas da infância é causada por vírus. Os vírus são microrganismos microscópicos responsáveis por uma variedade de sintomas, muitos deles inespecíficos e, em sua maior parte, sem gravidade.
Sintomas como febre, mal estar, dor de cabeça, dor na barriga, dor no corpo, espirros, coriza, tosse, alteração de consistência das fezes são exemplos de manifestações que as infecções virais podem apresentar e, muitas vezes, elas coexistem no mesmo quadro.
A identificação etiológica de qual vírus está causando a infecção não é necessária nem indicada na maioria das vezes, pois, ou não temos recurso disponível (a maior parte dos vírus não tem exames específicos acessíveis), ou não irá levar à mudança de conduta.
Alguns vírus como influenza, coronavírus, vírus sincicial respiratório, por exemplo, tem testes específicos em alguns centros de atendimento, mas havendo a suspeita clínica, independente da realização do exame, o paciente deve ser conduzido como tal. Mais de 80% dos diagnósticos serão dados apenas com história e exame físico bem feitos e isso poupa muitas “furadas” desnecessárias.
Vocês podem estar se perguntando se então nunca precisaremos realizar exames. A resposta é que, em alguns casos, os exames estão muito bem indicados, especialmente se houver sinal de gravidade.
Febre por mais de 72 horas, prostração importante, diarreia com sangue, sinais de desidratação, dificuldade para respirar, manchas no corpo sugestivas de dengue, alteração dos sinais vitais são alguns sinais que provavelmente precisarão de ampliação da avaliação clínica com exames laboratoriais ou de imagem.
O tratamento quase sempre será apenas com medicações sintomáticas para controle de dor, febre, além de hidratação oral. Poucos são os casos que precisarão de medicação específica, já que para a maioria dos vírus não existe medicação antiviral. Repouso, hidratação, alimentação saudável e atenção aos sinais de piora clínica comporão quase a totalidade das receitas de alta.
Lembrem-se que as doenças são dinâmicas e alguns casos precisarão de reavaliação médica, sem isso significar erro no atendimento inicial.
A “virose” tem muitos sobrenomes e podemos estar diante de um resfriado, uma gastroenterite viral, uma faringite, gripe, varicela ou dengue. Cabe ao profissional de saúde tentar esclarecer da melhor forma possível sobre a suspeita diagnóstica principal e a indicação ou não de exames complementares.
A infância é um período da vida em que a criança contrai muitas infecções virais (“viroses”) e a boa informação é a melhor aliada da medicina de qualidade.
Lis Thomazini