Por Isle Menezes*
Entre os meses de abril e julho, Salvador entra no período mais chuvoso do ano, marcado por dias consecutivos de precipitação e mudanças no tempo. Nesse cenário, ruas alagadas, trânsito lento e atrasos no transporte público passam a fazer parte da rotina de quem precisa se deslocar pela cidade. Os impactos atingem motoristas, usuários do transporte coletivo e pedestres, especialmente em áreas mais vulneráveis, onde a combinação entre relevo, ocupação urbana e drenagem insuficiente agrava os efeitos da chuva.
Esse contexto se repete todos os anos e exige uma reorganização da dinâmica urbana, tanto por parte do poder público quanto da população, que precisa adaptar a rotina diante dos transtornos causados pelo aumento no volume de água. Atualmente, Salvador possui 186 áreas de risco mapeadas e monitoradas, segundo a Codesal, o que reforça a necessidade de ações contínuas de prevenção e resposta rápida.
Os efeitos das chuvas não atingem a cidade de forma uniforme. Regiões com infraestrutura mais precária, especialmente áreas de encosta, concentram maior número de ocorrências, incluindo alagamentos e risco de deslizamentos de terra.
A realidade enfrentada por moradores dessas regiões é marcada pela insegurança durante o período chuvoso. Para seu Jair Ferreira, líder comunitário do bairro de São Caetano, o medo faz parte do cotidiano de quem vive em áreas de risco. “Ao longo dos anos, grande parte da população que mora em comunidades, principalmente em áreas de risco, vive com medo de ser surpreendida pelas fortes chuvas e por deslizamentos de terra. Isso acontece por falta de investimentos em contenção de encostas e na limpeza urbana. É necessário um trabalho de prevenção antes do período das chuvas mais intensas, para que os moradores possam dormir com mais tranquilidade. O que falta, de fato, é que o dinheiro público seja investido e fiscalizado com mais atenção, garantindo infraestrutura adequada para as comunidades”, disse.
Para o arquiteto e urbanista Ernesto Carvalho, Salvador avançou nos últimos anos na preparação para eventos climáticos extremos, principalmente por meio da atuação da Defesa Civil e das políticas preventivas adotadas pela cidade. “Salvador tem se preparado muito durante esses últimos 12 anos em relação à Defesa Civil e ao enfrentamento das chuvas. O que ocorre atualmente são fenômenos hiperbolizados, com eventos climáticos extremos, uma versão mais potencializada do El Niño, com chuvas intensas, fora do esperado e em curto espaço de tempo”, afirmou.
Para ele, a principal diferença está na capacidade de antecipação da cidade diante dos riscos climáticos. “Salvador hoje se antecipa, ao invés de ser surpreendida”, completou.
Encostas e obras
No mês de abril, durante a entrega de uma obra de proteção de encosta em Nova Brasília, o prefeito de Salvador, Bruno Reis, destacou os investimentos realizados pela gestão municipal em ações preventivas voltadas para o período chuvoso.
“Proteção de mais uma área de risco na nossa cidade, obra de número 587. Ao longo desses últimos anos, nós protegemos quase 600 áreas e é isso que permite a nossa cidade ser mais resiliente, resistente e ter mais capacidade de enfrentar as chuvas”, afirmou.
O prefeito também relembrou os impactos das chuvas registradas em abril deste ano e associou as intervenções estruturais à redução de tragédias durante períodos de forte precipitação.
“Semana passada, em apenas dois dias, choveu mais do que era previsto para o mês todo. Se isso tivesse ocorrido no passado, a gente estaria chorando e lamentando a perda de vidas de irmãos e irmãs nossas. Era comum, quando tinha chuvas nessa intensidade, diversas áreas deslizarem e desabarem e as pessoas perderem suas vidas”, disse.
Segundo Bruno Reis, além das obras de contenção de encostas, a cidade também recebeu intervenções de drenagem urbana nos últimos anos.
“Além da proteção dessas áreas de risco, nós também fizemos um conjunto de quase 6 mil escadarias drenantes”, completou.
Operação chuva
Para enfrentar o período chuvoso, a Prefeitura de Salvador iniciou, em abril, a Operação Chuva 2026, coordenada pela Codesal. A iniciativa reúne diversos órgãos municipais e instituições parceiras com foco na prevenção de desastres e na proteção da população.
O monitoramento climático ocorre em tempo real pelo Cemadec, com emissão de alertas por SMS e acionamento de sirenes em áreas de risco, conforme a Defesa Civil. A população pode se cadastrar gratuitamente enviando o CEP para o número 40199, além de acionar o atendimento emergencial pelo telefone 199.
Entre as principais ações estão a remoção preventiva de moradores em áreas de risco, demolição de imóveis condenados, vistorias técnicas, limpeza de áreas afetadas e atendimento emergencial, segundo a Codesal.
Desafio que se repete
Apesar dos avanços em prevenção e monitoramento, os dados recentes mostram que o volume de chuvas ainda supera, em muitos casos, a capacidade de resposta da infraestrutura urbana. Fatores como crescimento urbano desordenado e impermeabilização do solo contribuem para agravar os impactos.
Para a população, a chuva vai além de um fenômeno climático: altera a rotina, aumenta o tempo de deslocamento e exige adaptação constante. Em uma cidade com grande fluxo urbano como Salvador, os efeitos são amplos e recorrentes.
Enquanto as “águas de abril” seguem como parte do calendário da capital baiana, o desafio permanece: transformar ações emergenciais em soluções estruturais capazes de reduzir, de forma duradoura, os impactos do período chuvoso.
*com supervisão do jornalista Thiago Conceição.