Por Mariah Marques*
O impacto do uso de celulares e outras tecnologias na rotina de crianças e adolescentes deixou de ser uma preocupação restrita às famílias e passou a ocupar espaço cada vez maior dentro das escolas brasileiras. Em 2025, oito em cada dez instituições de ensino fundamental e médio discutiram os efeitos das tecnologias digitais na saúde mental dos estudantes, segundo a pesquisa TIC Educação 2025. O índice representa um crescimento de 18 pontos percentuais em relação ao ano anterior, quando o tema era debatido por 62% das escolas.
O levantamento foi realizado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), ligado ao Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), a partir de 2.404 entrevistas com gestores de escolas públicas e particulares, em áreas urbanas e rurais. Os dados mostram que o debate também avançou em relação ao uso seguro, crítico e responsável das tecnologias, tema discutido por 75% das instituições em 2025, contra 56% em 2024.
Mais do que contar as horas diante da tela
Na prática, porém, os efeitos desse uso aparecem de formas diferentes dentro e fora da sala de aula. Para a psicóloga Hyrla Almeida (CRP 03/33762), não basta observar quantas horas uma criança passa diante de uma tela. É necessário considerar o conteúdo consumido, a finalidade do uso, a idade e, principalmente, o que aquela tecnologia está substituindo na rotina.
Entre os sinais que merecem atenção, a especialista cita irritabilidade frequente, dificuldade para interromper o uso, alterações no sono, prejuízos na concentração, perda de interesse por outras atividades e conflitos familiares. Segundo Hyrla, esses sinais não devem ser interpretados isoladamente como uma dependência, mas podem indicar que a relação da criança com a tecnologia precisa ser observada com mais cuidado.
“Eu não perguntaria apenas ‘quanto tempo essa criança fica na tela?’, mas também: ‘O que ela está consumindo? Por que está utilizando a tecnologia? Como reage quando precisa parar? E o que esse uso está substituindo na vida dela?’”, explica a psicóloga.
Quando o celular começa a mudar a rotina em casa
Foi justamente a mudança na rotina que levou Tuane Moura da Silva, mãe de Melissa, de 5 anos, a rever o espaço ocupado pelas telas dentro de casa. Segundo ela, a filha passou por um período em que utilizava frequentemente celular e tablet, inclusive em momentos como as refeições, antes de dormir, ao acordar e durante as atividades escolares.
“Com o passar do tempo, o uso foi afetando a rotina, como na hora de dormir, para se alimentar, fazer atividades da escola. Ao acordar, já ia direto para o celular”, relata.
A mãe conta que inicialmente tentou estabelecer horários para o uso. Quando o tempo terminava, porém, a criança reagia com irritação e fazia birras. Depois de decidir retirar as telas, Tuane percebeu mudanças na rotina da filha. Atualmente, a televisão ocupa parte desse espaço, mas o celular e o tablet deixaram de fazer parte do cotidiano da menina como antes.
Para Tuane, a escola também poderia participar mais desse processo. Ela afirma que nunca recebeu uma orientação específica da instituição de ensino sobre o assunto, mas considera que o caminho não precisa ser simplesmente proibir as telas.
“Poderiam orientar sobre o uso com segurança. Não é necessário proibir, mas entender que existem várias atividades que podem ser substituídas”, avalia.
A experiência relatada pela família encontra eco no cotidiano escolar. Para a educadora Raime Paixão, coordenadora pedagógica e profissional com atuação nas áreas de educação e inclusão, o uso exagerado é hoje um dos principais problemas relacionados às telas entre os estudantes.
O desafio também aparece dentro da sala de aula
Segundo ela, uma das dificuldades está no fato de algumas famílias acabarem utilizando os dispositivos como forma de ocupar as crianças. Na escola, os reflexos aparecem de maneiras diferentes conforme a idade. Entre as crianças menores, Raime observa a reprodução de comportamentos vistos em vídeos e desenhos. Entre os adolescentes, ela chama atenção para o uso excessivo de jogos e para os riscos relacionados à exposição na internet, incluindo situações de violência e exploração.
“Quando o uso é nas primeiras infâncias, notamos que as crianças fazem aquilo que está lá nos vídeos e nos desenhos de forma clara e direta”, afirma.
A educadora também defende que a solução não passa apenas pela retirada dos aparelhos. Para ela, ensinar quando e como utilizar a tecnologia pode ser mais efetivo do que simplesmente estabelecer uma proibição.
“O mais importante é ensinar a responsabilidade do uso. Quando e como usar é muito mais fácil”, destaca.
Família e escola ainda enfrentam dificuldades
A pesquisa TIC Educação mostra que as escolas também enfrentam dificuldades para transformar essa preocupação em ações concretas. Embora 65% das instituições tenham desenvolvido alguma iniciativa voltada aos estudantes sobre o uso de tecnologias digitais, a participação das famílias aparece como um dos principais obstáculos. Entre as escolas que realizam essas ações, 75% dos gestores apontaram a baixa participação de pais e responsáveis como uma dificuldade.
A própria relação entre escola e família é apontada por Raime como um dos desafios. Segundo ela, algumas instituições enviam comunicados, promovem reuniões e buscam conversar com os responsáveis sobre o controle do uso das telas, mas nem sempre encontram colaboração.
“Conhecimento é poder. As famílias precisam criar uma rotina adaptada para cada filho, de acordo com as necessidades familiares e positiva para as crianças”, afirma a educadora, que defende a inclusão de atividades como leitura, brincadeiras e momentos de convivência familiar.
Celular na escola: proibir ou ensinar a usar?
O debate também envolve o próprio celular dentro das escolas. De acordo com a TIC Educação 2025, 51% dos gestores afirmaram que os alunos não podem levar o aparelho pessoal para o ambiente escolar. Em 40% das instituições, o celular pode ser levado, mas existem regras para seu armazenamento. Entre as escolas que permitem a entrada dos dispositivos, 66% autorizam seu uso em atividades pedagógicas.
Para Hyrla, estabelecer limites não significa transformar a tecnologia em vilã. A psicóloga alerta que um dos erros mais comuns é fazer da tela o principal recurso para acalmar, distrair ou recompensar a criança. O desafio, segundo ela, é ajudar meninos e meninas a desenvolver outras formas de lidar com o tédio, a frustração e as próprias emoções.
O que precisa mudar na rotina
Quando o uso começa a interferir de maneira significativa no sono, na aprendizagem, nos relacionamentos, nas atividades diárias ou no bem-estar emocional, a recomendação é buscar avaliação profissional. A construção de uma rotina saudável, explica a psicóloga, envolve equilíbrio entre tecnologia, sono, atividade física, brincadeiras, aprendizagem, convivência familiar e interação social.
Os números da pesquisa mostram que as escolas já perceberam que o assunto precisa ser discutido. Em 2025, 75% dos gestores também afirmaram ter se reunido com pais, mães e responsáveis para tratar do uso de tecnologias digitais, enquanto 86% conversaram com professores e outros profissionais sobre o tema.
Mais do que decidir entre permitir ou proibir o celular, o desafio apontado por especialistas e educadores é estabelecer uma relação mais consciente com as telas. Dentro de casa ou na escola, a pergunta passa a ser não apenas quanto tempo crianças e adolescentes permanecem conectados, mas o que estão deixando de fazer, sentir e vivenciar enquanto estão diante da tela.
* com supervisão da jornalista Cíntia Santos