Ações de vandalismo contra monumentos históricos e equipamentos públicos têm gerado prejuízos milionários em Salvador e preocupado órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio cultural da capital baiana. Somente entre 2025 e 2026, a Prefeitura investiu cerca de R$ 945 mil em serviços de recuperação e restauro de obras danificadas, grande parte em decorrência de depredações.
Um dos casos mais recentes envolve o monumento em homenagem ao poeta Vinícius de Moraes, localizado em Itapuã. Pouco tempo após passar por restauração, a escultura voltou a ser alvo de vandalismo. Durante uma vistoria, foi identificado que o pulso e o antebraço da peça haviam sido serrados em uma tentativa de furto, além de danos causados na cadeira que integra o monumento.
A obra, criada pelo artista plástico baiano Juarez Paraíso e inaugurada em 2003, reproduz Vinícius de Moraes sentado à mesa, em tamanho natural, em referência ao período em que o poeta viveu no bairro e compôs clássicos como “Tarde em Itapuã”.
Outro monumento frequentemente atacado é a estátua Gandhi Andante, instalada na Praça da Inglaterra, no Comércio. Inicialmente, a peça teve os óculos furtados. No entanto, antes mesmo do início da restauração, novos danos foram registrados, incluindo o desaparecimento de parte do cajado e da vestimenta da escultura.
Entre os monumentos restaurados pela Fundação Gregório de Mattos (FGM) nos últimos meses estão a Sereia Yemanjá, no Rio Vermelho; o monumento a Dodô e Osmar, na Praça Castro Alves; a estátua de João Ubaldo Ribeiro, na Pituba; e o monumento à Mãe Stella de Oxóssi, em Stella Maris.
Também seguem em processo de recuperação obras importantes como o monumento aos heróis da Conjuração Baiana, na Praça da Piedade, os monumentos ao 2 de Julho, no Campo Grande, além do acervo da Casa do Benin, no Centro Histórico.
Segundo a FGM, o trabalho de preservação acontece a partir de vistorias técnicas periódicas e denúncias feitas pela população. A definição das prioridades leva em conta fatores como valor histórico da peça, gravidade dos danos e disponibilidade orçamentária.
A gerente de Patrimônio Cultural da FGM, Roberta Santucci, afirmou que os novos projetos de monumentos já estão sendo pensados com mecanismos que dificultem ações criminosas.
“A instituição também desenvolve ações permanentes de educação patrimonial, por meio de iniciativas como ‘Patrimônio é…’, ‘Reconectar’ e ‘Jornada do Patrimônio Cultural’, entre outras, visando fortalecer o reconhecimento e o cuidado coletivo com os bens públicos e a memória da cidade”, afirmou.
O historiador Murilo Mello destacou que os monumentos representam diferentes grupos e momentos da história de Salvador, e que os ataques atingem diretamente a memória coletiva da cidade.
“São peças importantes para todos, para a cidade como um todo, para a memória e identidade baiana. E cada peça, em si, representa um grupo ou parte da história da cidade. A estátua de Mãe Stella, por exemplo, incendiada em 2022, representa o povo de candomblé; então o vandalismo a essas obras é um ato de profanação ao todo, mas também a um grupo em específico”, disse.
A Guarda Civil Municipal informou que intensificou as rondas preventivas para combater atos de vandalismo e furtos contra o patrimônio público. O órgão também disponibilizou um canal de denúncias via WhatsApp pelo número (71) 99623-4955.
Segundo o Código Penal, destruir ou deteriorar patrimônio público é crime e pode resultar em pena de até três anos de prisão, além de multa.