As investigações da Polícia Civil sobre a clínica de reabilitação Terra Santa Videira, localizada em Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, apontam que a morte do monitor Iago Marques Formiga, de 33 anos, pode ter ocorrido em uma tentativa de “queima de arquivo”. A informação foi divulgada pelo delegado Marcos Laranjeira, titular da 20ª Delegacia Territorial (DT/Candeias), durante a Operação Terra Santa, deflagrada nesta quarta-feira (22).
A ação resultou no resgate de 39 internos que, segundo a Polícia Civil, estavam em situação de cárcere privado, além da prisão em flagrante do gerente da clínica pelos crimes de tortura e maus-tratos. A unidade também é investigada pelas mortes de Iago e do ex-interno Geovane Santana Lopes.
Investigação aponta tentativa de denúncia como possível motivação
Segundo o delegado Marcos Laranjeira, a principal linha de investigação é que Iago teria sido morto após demonstrar intenção de denunciar às autoridades as agressões e torturas que ocorriam dentro da clínica, especialmente após o caso envolvendo Geovane Santana Lopes.
“Nós colhemos depoimentos nesse sentido de que o Iago, inconformado com os maus-tratos, com a tortura feita na clínica contra seu amigo, foi vítima de queima de arquivo, porque havia uma intenção dele relatar o fato às autoridades policiais”, afirmou o delegado.
De acordo com Laranjeira, há indícios da participação do proprietário da clínica e do gerente nos homicídios investigados. “Temos vasta prova testemunhal, em depoimentos do inquérito policial, que apontam a autoria do responsável pela clínica e do gerente”, declarou.
Mortes de Geovane e Iago são investigadas
As apurações tiveram início após Geovane Santana Lopes ser encontrado com graves queimaduras dentro da clínica, em dezembro de 2025. Na época, a instituição informou que ele teria provocado as próprias queimaduras, versão contestada pela família.
O paciente permaneceu internado por cerca de cinco meses e morreu em 4 de maio deste ano. Cinco dias após a morte de Geovane, Iago Marques Formiga desapareceu. Ex-interno da unidade, ele havia concluído o tratamento e passou a atuar como monitor e motorista da clínica.
O corpo do homem foi localizado dez dias depois, às margens da BA-530, em Camaçari, com marcas de tiros e parcialmente carbonizado.
Operação encontra estrutura com cadeados e fios eletrificados
Durante a Operação Terra Santa, policiais cumpriram mandados de busca e apreensão na sede da clínica, em uma filial localizada em Monte Gordo, na residência do gerente e na casa do proprietário, Moisés de Jesus Leal, no bairro do Cabula, em Salvador.
O dono da clínica não foi localizado, segundo a Polícia Civil, não havia mandado de prisão contra ele. Na unidade, os investigadores encontraram quartos trancados com cadeados, cercas com fios eletrificados sobre os telhados, medicamentos controlados e uma estrutura considerada degradante.
Segundo a polícia, os 39 internos resgatados apresentavam sinais de desnutrição e lesões aparentes.
Ex-internos relatam agressões e torturas
Depoimentos de ex-internos indicam que pacientes eram submetidos a agressões físicas, trabalhos forçados, privação de liberdade e uso irregular de medicamentos para reduzir a capacidade de reação.
As vítimas também relataram a existência de um espaço chamado de “quartinho do amor”, onde, segundo os relatos, aconteciam sessões de tortura. Ainda conforme os depoimentos, internos eram colocados de cabeça para baixo, agredidos com palmatórias e colheres de plástico rígido, submetidos a choques elétricos e a supostos afogamentos em uma área próxima a um lago.
Outros relatos apontam que pacientes eram obrigados a trabalhar das 5h às 20h e sofriam agressões caso se recusassem a realizar as atividades.
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