PF descobre fraude de milhões em Farmácia Popular para financiar tráfico internacional

Por Redação 21/07/2025, às 11h35 - Atualizado às 14h22

A Polícia Federal investiga um esquema milionário que utilizava farmácias de fachada para desviar recursos do Programa Farmácia Popular e financiar o tráfico internacional de drogas. A quadrilha, com atuação em diferentes regiões do Brasil, movimentou cerca de R$ 40 milhões, segundo estimativas d polícia.

O grupo adquiria farmácias que estavam legalmente cadastradas no programa, mas que haviam encerrado suas atividades. Após alterações societárias, as empresas eram reativadas em nome de laranjas. Com isso, os investigados simulavam a venda de medicamentos — gratuitos ou subsidiados — para justificar repasses elevados do Ministério da Saúde.

“Durante o funcionamento dos estabelecimentos, os repasses mensais do programa não ultrapassavam R$ 5 mil. Com o início das fraudes, cada farmácia passava a receber valores que giravam em torno de R$ 60 a R$ 90 mil por mês”, destaca a PF. Para isso, o grupo utilizava dados de consumidores reais, sem que essas pessoas soubessem que seus CPFs e endereços estavam sendo usados de forma ilegal.

As investigações começaram em 2022, após a apreensão de 191 quilos de drogas em Luziânia (GO), com um caminhoneiro que havia partido de Rondônia. Parte da carga foi entregue em Ribeirão Preto (SP) e o restante em Luziânia, onde seria recebido por Clayton Soares da Silva, empresário com farmácias no Rio Grande do Sul e Pernambuco. Clayton e o caminhoneiro foram presos em flagrante.

No celular do empresário, foram encontrados documentos e mensagens que detalhavam o funcionamento do esquema. Segundo a PF, Clayton chegou a disputar o cargo de vereador nas eleições municipais de 2024.

As mensagens levaram a polícia até Fernando Batista da Silva, conhecido como “Fernando Piolho”, apontado como líder da organização. Ele usava o nome da própria filha para abrir empresas e movimentar recursos ilícitos sem chamar atenção. Uma dessas empresas, a Construarte, teria recebido mais de R$ 500 mil de pessoas investigadas ou presas por tráfico.

A PF afirma que Fernando mantinha vínculos com membros do Comando Vermelho e que o grupo repassava dinheiro a pessoas em cidades próximas à fronteira com o Peru e a Bolívia. Entre os destinatários, está a esposa de um integrante do Clã Cisneros, organização criminosa peruana conhecida por operar laboratórios de cocaína.

Os investigadores localizaram farmácias registradas em locais inexistentes, como terrenos baldios e áreas com matagal. Em um dos casos, uma farmácia registrada em um lote vazio usava o telefone de João Pessoa (PB), vinculado a Célia Aparecida de Carvalho, acusada de fornecer CNPJs para o grupo.

Em fevereiro deste ano, a Justiça Federal expediu 106 ordens judiciais, cumpridas nos estados de Goiás, Paraíba, Mato Grosso, Acre e Minas Gerais. Também foi determinado o bloqueio de mais de R$ 39 milhões dos investigados. A operação, além de desmantelar o núcleo empresarial do esquema, revelou a ligação direta entre o desvio de recursos públicos da saúde e o financiamento para o tráfico internacional de drogas.