Policiais entram em terreiro de Candomblé durante incursão e religiosos se sentem coagidos

Por Redação 01/08/2026, às 09h04 - Atualizado às 07h54

Por Guilherme Rios*

Uma incursão policial foi registrada em um terreiro de Candomblé localizado em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, na manhã desta sexta-feira (31). O espaço religioso que aparece nas imagens divulgadas é o Ilê Axé Opô Aganju. Nos vídeos, é possível ver policiais fortemente armados entrando nas dependências do terreiro durante uma ação realizada na região.

Segundo Fabiana de Paula, filha de santo do Ilê Axé Opô Aganju, a ação aconteceu por volta do meio-dia. Ela relatou que os policiais entraram no espaço religioso após uma ocorrência na região e que, durante a abordagem, pediu que os agentes abaixassem as armas por conta da presença de pessoas no local. “Eu só pedi para eles baixarem a arma, por conta do meu avô e tal, mas eles não respeitaram. E aí, simplesmente, entrou”, afirmou.

Fabiana contou ainda que tentou conversar com os policiais durante a entrada no terreiro, mas afirmou que não se sentiu respeitada durante a abordagem. “Eu queria sair para ver meu avô, né? E eles ficaram: ‘entra, entra, entra’. Não respeitaram, assim. Eu só pedi, mas como ele não quis, eles aí rodearam”, relatou.

A filha de santo também lamentou a forma como a ação foi conduzida dentro do espaço religioso. “É triste, sabe? É triste porque não pensa no meu avô na idade, não pensa no dono. São desumanos”, declarou Fabiana, ao comentar sobre a situação vivida pelos integrantes do terreiro.

Para Leonel Monteiro, presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia, episódios como esse refletem um histórico de conflitos entre forças de segurança e comunidades tradicionais de matriz africana. “A relação das forças de segurança, ou seja, as polícias Civil e Militar, e mais adiante as guardas municipais, sempre foi conturbada, foi desrespeitosa com relação às comunidades tradicionais, sobretudo de terreiro”, afirmou.

Segundo Leonel, já foram registrados outros casos de entrada de agentes de segurança em terreiros sem autorização judicial. “Ao longo dos tempos, nós já registramos vários episódios de incursões de prepostos de equipes das polícias que, eu vou usar a palavra invade, porque não pediu licença ou não foi comandado judicialmente, de adentrarem a um terreiro de Candomblé ou de Umbanda”, disse.

O presidente da associação destacou que os terreiros devem ser reconhecidos como espaços religiosos e defendeu uma preparação maior dos agentes públicos para lidar com a diversidade religiosa. “Uma comunidade tradicional precisa ser preservada, precisa ser entendida como um templo religioso e respeitada. Ali não é um local de acobertar meliantes ou qualquer coisa desse tipo, é um templo religioso como outro qualquer”, declarou.

Em nota, a Polícia Militar da Bahia informou que a ação realizada na manhã desta sexta-feira (31) ocorreu após uma denúncia de sequestro de um homem em Lauro de Freitas. Segundo a corporação, policiais da 52ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM) receberam informações de que os suspeitos estariam na região da Vila Praiana e iniciaram as buscas, que resultaram na localização da vítima. A PM informou ainda que rondas foram realizadas, mas os suspeitos não foram encontrados. A vítima, acompanhada da mãe, foi apresentada à delegacia para registro do fato e adoção das medidas cabíveis. A corporação não respondeu sobre a forma em que a operação foi conduzida dentro do espaço religioso.

*com a supervisão do jornalista Thiago Conceição.