Brasil avança na criação de sistema de pagamento do Brics e enfrenta resistência dos EUA

Por Redação 14/02/2025, às 20h02 - Atualizado às 17h04

Em meio à ofensiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Brics, o Brasil, que atualmente preside o bloco, anunciou que desenvolverá uma plataforma para que os países-membros realizem transações comerciais em suas próprias moedas. A medida, que pode reduzir a dependência do dólar no comércio internacional, vai ao encontro do compromisso firmado pelos líderes do bloco na Cúpula de Johanesburgo, em 2023.

O documento divulgado pelo Brasil afirma que o país dará continuidade aos esforços para facilitar o comércio e o investimento, com um sistema de pagamento que seja mais acessível, transparente, seguro e inclusivo.

A iniciativa não agrada aos Estados Unidos, que têm intensificado sua guerra comercial com a elevação de tarifas sobre aço e alumínio, setores que afetam diretamente as exportações brasileiras.

Na última quinta-feira (13), antes de se reunir com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, Trump afirmou que o Brics estaria “morto” caso avançasse em planos para substituir o dólar no comércio internacional. Ele também ameaçou taxar em 100% as importações de países que aderirem a essa estratégia.

Em resposta indireta, o documento da presidência brasileira do Brics criticou a postura dos EUA, afirmando que “o recurso insensato ao unilateralismo e a ascensão do extremismo em várias partes do mundo ameaçam a estabilidade global e aprofundam as desigualdades”.

O texto destaca ainda a posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que enxerga o Brics como um espaço fundamental para a negociação diplomática e a resolução de conflitos globais.

Desafios

Para especialistas, o Brasil precisará esclarecer até que ponto a criação de um sistema de pagamentos em moedas locais representa uma alternativa ao dólar. O professor de ciência política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fabiano Mielniczuk, ressalta que o Brasil não deseja conflitos diretos com os EUA, mas defende um maior equilíbrio econômico.

“O Brasil tem enfatizado, principalmente por meio do embaixador Maurício Lirio, que não pretende avançar no sentido da desdolarização das relações econômicas internacionais. O país precisa deixar claro como esses mecanismos de pagamento funcionariam dentro do Brics”, explicou Mielniczuk.

Já a professora de relações internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Ana Elisa Saggioro Garcia, avalia que a proposta do Brasil ainda precisa ser detalhada. No entanto, ela acredita que, se o bloco conseguir fortalecer o comércio interno, reduzir tarifas e ampliar financiamentos em moedas locais, haverá um avanço significativo na economia dos países-membros.

Além do sistema de pagamentos, o Brasil também se comprometeu a atuar em outras frentes dentro do bloco:

  • Regulação da Inteligência Artificial (IA): O país pretende garantir que os dados gerados dentro das economias do Brics sejam protegidos e não fiquem exclusivamente sob controle das big techs estrangeiras.
  • Modernização industrial: O fortalecimento da Parceria Brics para a Nova Revolução Industrial (PartNIR) visa promover a atualização tecnológica e diversificação da base industrial dos países-membros.
  • Reforma do FMI e Banco Mundial: O Brasil defenderá maior representatividade dos países em desenvolvimento nas instituições financeiras globais, além de fortalecer o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), presidido por Dilma Rousseff, e o Arranjo de Reservas para Contingências (CRA), que conta com US$ 100 bilhões em reservas para crises financeiras.

Impactos globais

Com a iniciativa, o Brasil se posiciona como um líder no fortalecimento da cooperação entre os países do Sul Global. No entanto, enfrenta resistência dos Estados Unidos, que temem perder influência econômica caso o Brics avance na adoção de moedas locais.

O sucesso da medida dependerá da capacidade do bloco de implementar o sistema de pagamentos, das respostas do governo norte-americano e da adesão dos países-membros à proposta.