Brics critica tarifas unilaterais dos EUA e defende multilateralismo em fórum parlamentar no Brasil

Por Redação 03/06/2025, às 20h37 - Atualizado às 20h42

Sem citar diretamente o presidente norte-americano Donald Trump, parlamentares dos países que integram o Brics fizeram duras críticas, nesta terça-feira (3), em Brasília, ao aumento de medidas protecionistas adotadas de forma unilateral pelos Estados Unidos, que vêm impactando o comércio global desde abril.

As declarações ocorreram durante o 11º Fórum Parlamentar do Brics, realizado no Congresso Nacional, sob a presidência do Brasil no bloco em 2025. O evento reuniu representantes de comissões de Relações Exteriores de 15 países, entre membros permanentes e parceiros da coalizão de economias emergentes.

O senador Nelsinho Trad (PSD-MS), que preside a Comissão de Relações Exteriores do Senado e coordenou a reunião, criticou a escalada tarifária dos EUA e defendeu o fortalecimento do comércio entre os países do bloco. “Nos preocupa o avanço de medidas protecionistas unilaterais, muitas delas em desacordo com as normas da OMC. Há um uso crescente de barreiras tarifárias e ambientais com fins claramente protecionistas”, disse.

Trad reforçou que, mesmo diante de um cenário internacional de crescente rivalidade e retração do multilateralismo, o Brics mantém firme sua vocação de construir soluções conjuntas. “Somos contrários à lógica do confronto. Defendemos o diálogo e a cooperação.”

Críticas à mentalidade da Guerra Fria

Representando o Parlamento da China, o deputado Wang Ke apontou que a “mentalidade da Guerra Fria” tem retornado à cena global, com países impondo seus interesses pela força. “Alguns governos estão aplicando tarifas em todo o mundo e colocando seus interesses acima da comunidade internacional. Isso viola regras comerciais e afeta diretamente os países em desenvolvimento”, afirmou. Ele defendeu que o Brics reforce sua coesão como liderança do Sul Global.

Na mesma linha, o deputado Ali AlNuaimi, dos Emirados Árabes Unidos, declarou que a antiga ordem mundial está em colapso e que o Brics tem a missão de construir pontes em vez de barreiras. “Vivemos sob uma lógica de ‘se eu ganho, você perde’. O Brics mostra que todos podem ganhar juntos”, disse.

A Indonésia, recém-integrada como membro permanente, foi representada pelo deputado Mardani Ali Sera, que defendeu o uso de moedas locais no comércio entre países do bloco como forma de aumentar a resiliência econômica. A proposta de substituir o dólar em parte das transações comerciais é uma das bandeiras centrais do Brics — e tem sido duramente criticada por Donald Trump, que promete retaliar países que abandonarem a moeda americana.

América Latina e África ampliam protagonismo

Representando a África do Sul, o deputado Supra Mahumapelo elogiou a atuação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), presidido pela ex-presidenta Dilma Rousseff, e defendeu reformas estruturais nas instituições multilaterais, como ONU, FMI e OMC. “A arquitetura global favorece grandes potências e corporações, criando desequilíbrios que precisam ser corrigidos”, disse.

Pela Nigéria, o deputado Busayo Oluwole Oke também criticou as sanções econômicas unilaterais impostas por grandes potências e defendeu que o Brics diversifique seus canais comerciais, reduzindo a dependência do Ocidente.

A América Latina também esteve representada por Cuba e Bolívia, países que aderiram como membros parceiros. O deputado boliviano Felix Ajpi Ajpi defendeu o ingresso de mais nações ao bloco e destacou o potencial do país como fornecedor estratégico de lítio. “O Brics nos oferece uma via pacífica e multipolar de desenvolvimento, longe do unilateralismo que tanto nos prejudicou.”

Já o cubano Alberto Nuñez Betancourt apontou que o bloco é uma alternativa concreta à hegemonia ocidental. Ele defendeu o fortalecimento do NDB e o financiamento de projetos em moedas locais como caminho para impulsionar o desenvolvimento tecnológico e produtivo no Sul Global.

Expansão do Brics

Criado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o Brics tem ampliado sua presença global. Em 2024, passou a contar com novos membros permanentes: Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e, agora em 2025, a Indonésia. Também foi criada a categoria de membros parceiros, com a entrada de Belarus, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão.

Com mais de 100 projetos aprovados e cerca de US$ 33 bilhões em investimentos já realizados, o Novo Banco de Desenvolvimento é peça-chave na estratégia do bloco para reequilibrar a economia global e dar protagonismo aos países em desenvolvimento.