Por Záfya Tomaz
O governador Jerônimo Rodrigues (PT) aproveitou o primeiro debate entre os candidatos ao Governo da Bahia para reforçar duas mensagens centrais de sua campanha: a de que é um político ligado ao interior e às camadas populares e a de que ACM Neto (União Brasil) representa uma forma autoritária de fazer política. Ao longo do confronto, Jerônimo recorreu à própria origem e trajetória para responder aos ataques do adversário e recuperou declarações anteriores de Neto que, segundo ele, ajudam a sustentar essa imagem.
A estratégia ficou mais evidente quando o governador trouxe para o debate uma fala atribuída a Neto sobre a intenção de “humilhá-lo”. Jerônimo não tratou a declaração apenas como uma divergência política e a associou à sua origem. “Você me trata assim porque a minha origem é indígena, sou negro, sou filho de vaqueiro. Como os patrões tratam os trabalhadores empregados?”, afirmou.
Na sequência, elevou o tom ao dizer que não gostaria de ver a Bahia sendo governada “daquela forma do passado, com chicote na mão”. A fala transformou o embate em uma disputa também sobre os estilos de fazer política de cada candidato.
Jerônimo voltou ao tema em outro momento ao citar uma declaração de Neto sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O governador classificou o adversário como “anti-Lula” e tentou explorar uma possível contradição entre a posição política de Neto e a tentativa de dialogar com eleitores que apoiam o presidente. “Primeiro foi prometer uma surra no Lula. Você é anti-Lula. Você não gosta do Lula, você aproveita da carona do Lula”, disse.
A referência à declaração sobre Lula não foi isolada. Jerônimo também procurou reforçar a ideia de que Neto mantém proximidade com o campo político bolsonarista, numa tentativa de marcar uma diferença clara entre os dois diante de um eleitorado baiano historicamente favorável ao presidente.
Homem do interior como marca
Outro movimento perceptível de Jerônimo foi a insistência em sua origem e trajetória no interior da Bahia. Filho de vaqueiro e com origem indígena, o governador utilizou esse discurso para se apresentar como alguém mais próximo da realidade de parte significativa do eleitorado baiano.
A estratégia ganha relevância em uma eleição na qual o desempenho no interior pode ser decisivo. Ao reforçar essa identidade, Jerônimo tenta se distanciar da imagem de político tradicional da capital e estabelecer uma conexão direta com eleitores fora de Salvador.
A defesa da própria trajetória apareceu justamente nos momentos em que o debate caminhava para o campo pessoal. Em vez de apenas responder às críticas de Neto, Jerônimo transformou sua origem em argumento político e contrapôs sua história à forma como afirma ser tratado pelo adversário.
Jerônimo também buscou associar ACM Neto a uma postura de descrédito em relação às obras do governo estadual. Ao responder às críticas sobre infraestrutura, chamou o grupo adversário de “negacionista” e citou projetos como o metrô, o VLT, a ponte Salvador-Itaparica, a nova rodoviária e obras rodoviárias.
A lógica foi simples: diante das críticas de Neto à gestão, Jerônimo tentou deslocar a discussão para aquilo que considera entregas do governo e apresentar o adversário como alguém que teria duvidado da realização dos projetos.
No fim, porém, o governador demonstrou que esperava um debate diferente. Disse ter se preparado para discutir temas como meio ambiente e educação, mas avaliou que o encontro acabou concentrado nos ataques. “Eu vim aqui hoje para a Band, com expectativa. Eu me preparei para vir fazer um debate de alto nível, de meio ambiente, de educação. Não foi esse debate que eu vim aqui”, afirmou.
A participação de Jerônimo, portanto, teve como fio condutor a tentativa de defender sua gestão sem abrir mão do confronto. Ao mesmo tempo em que apresentou obras e resultados, o governador procurou transformar as falas de Neto em argumento para construir uma imagem de adversário distante da população e de estilo autoritário, enquanto reforçou a própria identidade de homem do interior e filho de trabalhador.