Dilma nega afronta aos EUA e defende uso de moedas locais em coletiva do Banco do Brics

Por Redação 05/07/2025, às 22h37 - Atualizado 06/07/2025 às 07h17

A presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), Dilma Rousseff, descartou neste sábado (5) qualquer movimento coordenado dos países do Brics para substituir o dólar como principal moeda do comércio internacional. Em entrevista coletiva no encerramento da 10ª Reunião Anual do banco, realizada no Rio de Janeiro, Dilma afirmou que o mercado financeiro internacional continua dolarizado, embora esteja buscando formas de diversificação.

“Ao contrário do que muitos especulam, não há um processo de desdolarização em curso. O que existe é o uso crescente de moedas locais nas transações entre países, o que não significa tirar o dólar de cena”, explicou a ex-presidente do Brasil. “Ninguém está tentando ocupar o lugar dos Estados Unidos. Essas decisões não partem de governos ou bancos multilaterais. É o próprio mercado que está se movimentando”, completou.

As declarações respondem a questionamentos sobre possíveis iniciativas do Brics para reduzir o uso do dólar. O tema ganhou repercussão internacional após críticas do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que chegou a ameaçar taxar em 100% as importações dos países que abandonassem a moeda americana nas transações comerciais.

Novos membros no NDB

Dilma anunciou ainda a entrada de dois novos países no NDB: Uzbequistão e Colômbia. Com a adesão, o banco – conhecido como “Banco do Brics” – passa a contar com 11 membros: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Bangladesh, Emirados Árabes, Egito, Argélia, Colômbia e Uzbequistão. A entrada foi aprovada pelo Conselho de Governadores da instituição, composto por ministros das Finanças dos países-membros.

Criado em 2015, o NDB tem como foco o financiamento de projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em países emergentes. Segundo Dilma, desde sua fundação, o banco já aprovou 122 projetos, somando aproximadamente US$ 40 bilhões. Só o Brasil recebeu US$ 7 bilhões em 29 projetos, sendo US$ 4 bilhões já desembolsados — o equivalente a 18% do total do banco.

Ciência, tecnologia e energia renovável como prioridade

Dilma também destacou a necessidade de os países membros investirem em inovação e tecnologia. “Não podemos continuar como meros exportadores de commodities ou consumidores de plataformas criadas fora de nossos territórios. Precisamos ser produtores de conhecimento e de tecnologias como inteligência artificial”, afirmou.

A presidente do banco defendeu a industrialização baseada em ciência e tecnologia como caminho para o desenvolvimento sustentável. Segundo ela, o NDB deve focar recursos em setores estratégicos como transição energética e armazenamento de energia renovável.

Ao comentar sobre essa prioridade, Dilma relembrou uma declaração polêmica que fez quando era presidente do Brasil. “Quando falei em estocar vento e Sol, muitos riram. Hoje, isso é uma das frentes mais importantes da energia renovável. A Europa já sentiu os impactos da falta de capacidade de armazenamento de energia em situações críticas”, disse, mencionando o recente colapso nos sistemas de transmissão da Espanha e de Portugal.

Brics em expansão

Sob presidência temporária do Brasil, o Brics realiza sua 17ª Cúpula entre os dias 6 e 7 de julho, também no Rio. O grupo, que começou com cinco países, agora é formado por 11 membros permanentes: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia. Há ainda países parceiros como Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Uganda, Malásia e outros.

Juntos, os países do Brics representam 39% da economia global, 48,5% da população mundial e 23% do comércio internacional. Em 2024, os membros do bloco foram responsáveis por 36% das exportações brasileiras e 34% das importações.