Por Záfya Tomaz
O novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros tem movimentado o cenário político nacional, mas seus efeitos podem ir além do embate entre governo e oposição. Especialistas avaliam que, caso as tarifas sejam mantidas, os impactos podem chegar ao dia a dia da população, com reflexos sobre empregos, renda, preços e a economia de estados exportadores, como a Bahia.
A preocupação é maior em setores que dependem do mercado norte-americano. Na Bahia, produtos como celulose, cacau, frutas, café, derivados petroquímicos e minerais fazem parte da pauta de exportações para os Estados Unidos. Se essas vendas diminuírem, empresas podem reduzir a produção, rever investimentos e até cortar postos de trabalho.
O efeito também pode alcançar quem não trabalha diretamente com exportação. Caso o dólar volte a subir em razão da instabilidade comercial, produtos importados e itens que utilizam componentes do exterior podem ficar mais caros. Isso inclui desde eletrônicos e medicamentos até máquinas, equipamentos e parte dos insumos utilizados pela indústria nacional.
Por outro lado, economistas apontam que alguns alimentos produzidos para exportação podem registrar maior oferta no mercado interno, caso as vendas para os Estados Unidos diminuam. Nesse cenário, determinados produtos poderiam ter os preços reduzidos ou sofrer menor pressão inflacionária. Ainda assim, os efeitos dependerão da duração das tarifas e da capacidade dos produtores de encontrar novos mercados.
Enquanto o setor produtivo acompanha os possíveis impactos econômicos, o tarifaço também acirrou a disputa política. Em nota, o governo federal afirmou que a medida não possui justificativa comercial, destacou que os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 424,5 bilhões na relação comercial com o Brasil nos últimos 15 anos e informou que manteve negociações com autoridades norte-americanas. O Palácio do Planalto também atribuiu parte do desfecho à atuação da família Bolsonaro junto ao governo dos Estados Unidos.
Na oposição, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) responsabilizou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelo agravamento das relações entre os dois países. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), fez críticas semelhantes. Já o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), e o presidente do Movimento Brasil Livre (MBL), Renan Santos, defenderam que a crise seja tratada com foco nos interesses econômicos do país e criticaram tanto a condução do governo federal quanto a atuação da família Bolsonaro.
Apesar da polarização política, economistas ressaltam que a principal preocupação deve ser a capacidade do Brasil de preservar mercados para seus produtos e reduzir os impactos sobre a atividade econômica. Para a população, os reflexos serão percebidos principalmente se houver desaceleração da produção, perda de empregos, pressão sobre o dólar ou aumento da inflação, efeitos que ainda dependerão do resultado das negociações entre os dois países.