Por Záfya Tomaz
A votação da PEC que acaba com a escala 6×1 ficou para depois das eleições. O anúncio foi feito pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), nesta quinta-feira (3), um dia depois de a proposta avançar na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa. O senador não definiu se o texto será analisado entre o primeiro e o segundo turno ou somente após o fim do processo eleitoral.
A decisão tem um peso que vai além do calendário do Congresso. O fim da escala 6×1 é uma das principais pautas trabalhistas defendidas pelo presidente Lula (PT) e vinha sendo tratado pelo governo como uma possível vitrine para a campanha pela reeleição. O Planalto trabalhava para aprovar a proposta antes do primeiro turno justamente para chegar às urnas com o resultado em mãos.
Agora, Lula perde a possibilidade de apresentar a aprovação da PEC como uma conquista já consolidada antes do voto. A proposta ainda precisa passar pelo plenário do Senado, em dois turnos, com pelo menos 49 votos favoráveis. O texto prevê a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, dois dias de descanso remunerado e manutenção dos salários.
Nos últimos dias, Lula passou a responsabilizar setores da oposição pela resistência à proposta. Entre os alvos está o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência. Marinho se posicionou contra o texto e defendeu uma proposta alternativa para mudar a jornada de trabalho.
É aí que a pauta pode ganhar uma nova função na campanha. Se a PEC não for votada antes das eleições, o governo pode apresentar o episódio como uma tentativa da oposição de impedir uma medida que beneficia trabalhadores, transferindo para os adversários o custo político da não aprovação.
Por outro lado, existe um risco para Lula: transformar a 6×1 em uma das principais bandeiras da campanha e não conseguir entregá-la antes da eleição pode abrir espaço para a oposição questionar a capacidade de articulação do governo e explorar a promessa não cumprida.
O cenário, portanto, ainda está em aberto. Se a votação ocorrer entre os dois turnos, Lula poderá tentar transformar uma eventual aprovação em trunfo na reta final. Se ficar para depois da eleição, a 6×1 deve continuar no discurso político, mas agora como uma disputa sobre quem impediu, quem tentou aprovar e quem poderá levar o crédito pela mudança.