‘A UFBA não pode ser serviçal’: João Salles defende liberdade da instituição em disputa à reitoria

Por Redação 12/05/2026, às 16h23 - Atualizado às 16h35

Por Maria Eduarda Moura

O ex-reitor da Universidade Federal da Bahia, João Carlos Salles, candidato à reitoria da universidade pela chapa “Somos UFBA”, afirmou que pretende retomar o diálogo interno, fortalecer a assistência estudantil e ampliar a defesa do orçamento das universidades federais caso seja eleito para o quadriênio 2026-2030.

Em entrevista ao Taktá, o professor criticou pontos da atual gestão, defendeu ações mais firmes contra racismo e homofobia dentro da instituição e destacou que sua candidatura nasceu de um “movimento coletivo” da comunidade acadêmica. A chapa tem como candidata a vice-reitora a professora Jamile Borges, diretora do Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao) da UFBA.

Segundo ele, a experiência à frente da UFBA entre 2014 e 2022, período marcado por cortes orçamentários e conflitos com o governo federal durante a gestão de Jair Bolsonaro, motivou o retorno ao cenário eleitoral.

“Fizemos uma gestão de resistência aos ataques às universidades, inclusive orçamentários. Ao mesmo tempo, foi uma gestão que procurou fortalecer os conselhos universitários, as congregações e a participação coletiva”, afirmou.

O candidato disse que não pretendia retornar à administração universitária após deixar o cargo em 2022, mas afirmou que continuou acompanhando os debates sobre financiamento da educação superior e políticas internas da universidade. “Foi um movimento coletivo. Muitas pessoas começaram a defender a ideia do retorno e aceitei disputar novamente”, declarou.

Gestão participativa e crise no sistema acadêmico

Entre as prioridades apresentadas para os primeiros meses de uma eventual gestão, o professor destacou a necessidade de reconstruir espaços de debate dentro da universidade.

Segundo ele, a UFBA enfrenta um “esvaziamento do debate público”, o que tem levado conflitos internos a serem expostos nas redes sociais. Para o candidato, a solução passa pelo fortalecimento dos conselhos universitários e pela retomada da participação coletiva na tomada de decisões.

Outro ponto apontado como urgente foi a crise no sistema acadêmico do Centro de Gestão Acadêmica (CGA). O candidato afirmou que os problemas no sistema impactaram matrículas, emissão de diplomas e o funcionamento dos semestres letivos.

“A universidade vive uma situação praticamente inédita de dois semestres funcionando em regime de atipicidade. É preciso organizar imediatamente uma força-tarefa para resolver o problema”, disse.

Assistência estudantil e permanência

Durante a entrevista, o professor também defendeu a ampliação das políticas de assistência estudantil, com aumento de bolsas, expansão da oferta de refeições nos restaurantes universitários e fortalecimento de projetos de acolhimento psicológico e pedagógico.

Segundo ele, a expansão das universidades federais precisa ser acompanhada por mais investimentos públicos, especialmente diante do aumento de estudantes em situação de vulnerabilidade social.

“A assistência estudantil é definidora de uma universidade de qualidade. Não se trata apenas de evitar evasão, mas de garantir que os estudantes tenham condições de desenvolver plenamente seu talento dentro da universidade”, afirmou.

O candidato também criticou a dependência crescente de recursos extraorçamentários para manutenção das universidades e defendeu maior estabilidade no financiamento federal da educação superior.

Relação com estudantes e ocupações

Ao comentar críticas sobre uma suposta distância entre estudantes e gestão universitária, o professor reconheceu a existência de dificuldades na comunicação institucional, embora tenha afirmado que a tradição extensionista da UFBA mantém muitos docentes próximos da comunidade estudantil.

Ele defendeu o fortalecimento dos colegiados de curso e de canais permanentes de diálogo com os alunos. Segundo o candidato, movimentos estudantis e ocupações recentes demonstram a necessidade de maior escuta por parte da administração central.

“Quando os estudantes recorrem a ocupações, isso sinaliza que eles não estão encontrando canais suficientes de diálogo. A gestão precisa acolher essas demandas antes que os conflitos cheguem a esse ponto”, disse.

Diversidade e combate à discriminação

Questionado sobre casos de racismo, homofobia e assédio dentro da universidade, o candidato afirmou que a UFBA reproduz problemas presentes na sociedade, mas também pode atuar como espaço de enfrentamento dessas práticas.

Ele defendeu o fortalecimento das ações afirmativas, dos núcleos de acolhimento e de políticas institucionais de combate à discriminação.

“A universidade não é homogênea. Ela carrega preconceitos e exclusões da sociedade, mas também é um espaço privilegiado para combater essas práticas. É preciso enfrentar diretamente manifestações de racismo, preconceito e assédio, além de proteger as vítimas”, afirmou.

Críticas à atual gestão e defesa do orçamento

O candidato também fez críticas à atual administração da universidade, embora tenha evitado classificá-la como “conservadora”, termo utilizado por adversários na disputa eleitoral.

Segundo ele, houve falhas na condução do diálogo interno e na mobilização política em defesa do orçamento das universidades federais.

“Talvez tenha havido um rebaixamento da luta pelo orçamento. Fazer críticas ao governo não enfraquece um governo progressista; ao contrário, ajuda a fortalecer a pauta da educação”, declarou.

Ele também apontou problemas de manutenção predial e criticou a priorização de novas obras sem, segundo ele, garantir primeiro a conservação da infraestrutura já existente.

Eleição direta e construção coletiva

O professor classificou como “vitória histórica” o novo modelo de escolha da reitoria da UFBA, que elimina a lista tríplice e estabelece eleição direta para definição do dirigente máximo da instituição.

Segundo ele, a mudança fortalece a autonomia universitária e impede interferências externas no processo de escolha.

“O que antes era uma consulta agora é uma eleição de fato. A vontade da comunidade passa a ser respeitada diretamente”, afirmou.

O candidato também destacou o caráter coletivo da construção de sua chapa, organizada a partir de debates com estudantes, técnicos e docentes em torno de seis eixos temáticos.

Perfil do candidato

Professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, o candidato foi reitor da universidade entre 2014 e 2022. Ao longo da trajetória acadêmica, atuou nas áreas de filosofia, política universitária e gestão pública no ensino superior.

Na disputa pela reitoria para o período 2026-2030, ele concorre ao lado da professora Jamile Borges, docente da Faculdade de Educação e diretora do Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao). A chapa defende uma gestão participativa, fortalecimento da assistência estudantil, ampliação do debate interno e maior protagonismo político da universidade na defesa do orçamento público.

A votação será realizada nos dias 20 e 21 de maio e envolverá estudantes, docentes e servidores técnico-administrativos e será feita por meio de cédulas de papel, modelo definido Comissão Eleitoral vinculada ao Conselho Universitário (Consuni), responsável pela realização das eleições.