Por Celine de Souza*
O concurso de fachadas voltou a compor as celebrações do Dois de Julho em Salvador pelo segundo ano consecutivo após sua retomada em 2023. A ação mobiliza moradores ao longo do trajeto do cortejo cívico, que vai do Largo da Lapinha à Praça Municipal, e valoriza a participação popular na comemoração dos 202 anos da Independência da Bahia. O concurso é promovido pela Prefeitura de Salvador, através da Fundação Gregório de Matos (FGM).
“O que motivou a Fundação Gregório de Mattos a retomar o concurso de fachadas nas comemorações do Dois de Julho em 2023 foi justamente a celebração dos 200 anos da independência do Brasil na Bahia, o bicentenário”, explica Vagner Arocha, diretor de Patrimônio e Equipamentos Culturais da FGM. “A gente tinha interrompido esse concurso e o desfile por conta da pandemia, entre 2020 e 2021, devido às restrições sanitárias. Aproveitamos o ensejo das comemorações para retomar essa tradição, que está na memória afetiva de tantas pessoas que acompanham o cortejo do Caboclo e da Cabocla”, completa.
De acordo com o regulamento, podem participar moradores de imóveis residenciais situados ao longo do trajeto. Não é necessário se inscrever formalmente: basta decorar a fachada com elementos que dialoguem com o tema proposto para o ano, em 2024, o mote foi “Eu sou o Dois de Julho”. Estabelecimentos comerciais, mesmo que enfeitados, não são considerados pela comissão julgadora.
A seleção é feita por uma comissão julgadora formada por representantes da FGM, do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural e da sociedade civil. Os critérios considerados incluem criatividade, originalidade, respeito à temática histórica, preservação do patrimônio edificado e uso de materiais sustentáveis. As fachadas foram fotografadas e o resultado será divulgado em até dez dias úteis após o desfile, no site da FGM e no Diário Oficial do Município. O imóvel vencedor receberá uma placa comemorativa.
Além do caráter simbólico, o concurso contribui para a preservação da memória coletiva. “Acredito que o concurso fortalece bastante a identidade cultural, até porque os moradores decoram suas fachadas com as cores do Brasil e da Bahia, com plantas nas cores verde e amarela, trazendo personagens históricos. Muitas vezes, os próprios moradores se vestem de Joana Angélica, Maria Quitéria, Maria Felipa, do General Labatut. É muito bacana ver essa preparação para receber o cortejo”, destaca Arocha.
Segundo ele, o envolvimento da comunidade contribui para dar vida ao patrimônio. “O cortejo do Dois de Julho é patrimônio imaterial da Bahia. E as fachadas funcionam como uma moldura dessa imagem tão forte, que é o povo na rua, os grupos culturais, as fanfarras, as filarmônicas. É bonito ver os moradores enfeitando suas sacadas, exaltando o papel do povo baiano na independência do Brasil. Isso fortalece nosso sentimento de pertencimento e valorização da história e da cultura.”
Arocha também relembra histórias marcantes de edições anteriores. Uma delas é a da moradora Maria de São Pedro, da Rua Direita de Santo Antônio. “Ela faz aniversário no dia 2 de julho e celebra decorando sua casa com tapetes de fuxico, plantas e personagens vivos, familiares vestidos de figuras históricas. Ela espera o Caboclo e a Cabocla passar com orgulho. É uma referência. Você vê nos olhos dela e na fachada o quanto ela se empenha para esse momento. Ela é uma querida e um exemplo do que esse concurso representa”, conclui.
*s0b a supervisão do jornalista Thiago Coonceição.