Por Thiago Conceição
No trânsito de Salvador, um carro chama atenção entre tantos outros. O táxi é todo rosa, com bonecas espalhadas pelo painel e um clima de acolhimento que transforma cada corrida em uma experiência diferente. Ao volante está Valdete Araújo da Franca, de 58 anos, conhecida pelos passageiros como “Rosinha”.
Taxista há 11 anos, ela se tornou uma figura conhecida entre passageiros que circulam pela capital baiana. Mas a história de Valdete vai muito além do volante. A trajetória dela mistura décadas dedicadas à área da saúde, desafios financeiros e um sonho antigo: cursar medicina.
A ligação com a saúde começou ainda jovem. Em 1989, ela se formou em patologia clínica e, anos depois, seguiu na mesma área ao concluir cursos de auxiliar e técnico em enfermagem no final da década de 1990. Em 2005, após um período em São Paulo tentando ingressar na faculdade, Valdete se mudou para Salvador e passou a trabalhar em hospitais e também com atendimento domiciliar.
O passo seguinte foi a graduação. Em 2008, ela ingressou no curso de enfermagem e concluiu a formação em 2012. Depois disso, fez pós-graduação nas áreas de UTI, urgência e emergência, acumulando experiências em hospitais da cidade e atuando também com gerenciamento de feridas. Atualmente, além de trabalhar como taxista, ela também dá aulas em uma escola de formação na área de enfermagem.
Apesar da trajetória consolidada na saúde, a vida tomou outro rumo em 2015, quando dificuldades financeiras mudaram sua rotina profissional. Sem emprego fixo na época, ela começou a fazer transporte alternativo com o carro particular. Foi nesse período que surgiu a oportunidade de entrar no sistema de táxi como auxiliar.
“Eu perdi meu emprego e precisava me sustentar. Um amigo me orientou a entrar na área do táxi e me ajudou com as informações para fazer a documentação”, conta.
Valdete começou alugando veículos e chegou a trabalhar com quatro táxis diferentes. O atual é o primeiro que realmente pertence a ela. Em 2021, conseguiu obter uma autorização própria para atuar no serviço de táxi e, dois anos depois, quitou o carro, tornando-se permissionária do serviço.
O táxi rosa
Foi também no táxi que nasceu a ideia que transformaria seu veículo em marca registrada nas ruas de Salvador: o táxi rosa. A ideia surgiu durante as madrugadas de trabalho. Além do medo de assaltos, Valdete enfrentava preconceito por ser mulher em uma profissão historicamente dominada por homens. A solução encontrada foi criar um ambiente que transmitisse acolhimento e identidade. “Eu sempre gostei da cor rosa. Para mim, é a cor do amor, da vitória e da prosperidade. Resolvi colocar isso no meu táxi e pedir autorização à prefeitura para decorar com as bonequinhas”, explica.
O resultado virou marca pessoal. Muitos passageiros entram no carro curiosos, outros já procuram diretamente a corrida com “Rosinha”. Ao longo dos anos, ela criou vínculos com clientes e coleciona histórias de amizade que surgem durante as corridas.

Foto: Thiago Conceição / Taktá
O sonho da medicina
Mesmo assim, o sonho que acompanha Valdete desde a infância ainda não saiu do papel: cursar medicina Ela chegou a iniciar a faculdade e completou dois semestres, mas precisou interromper os estudos por causa do alto custo da mensalidade. Hoje, aos 58 anos, continua determinada a voltar para a sala de aula. “Sonho não tem idade. Não é porque estou com quase 60 anos que vou deixar de sonhar”, afirma.
Mais do que uma conquista pessoal, a formação em medicina tem um objetivo claro para ela. Valdete quer se especializar em geriatria e cardiologia e criar um projeto social voltado para quem não tem condições de pagar por atendimento médico. “Meu sonho é montar uma clínica social, onde as pessoas possam ser atendidas gratuitamente. Quero ajudar quem não tem condições de cuidar da própria saúde”, diz.
Atualmente, a mensalidade do curso que ela pretende fazer gira em torno de R$ 11,5 mil. A taxista acredita que conseguiria manter os estudos caso tivesse uma bolsa parcial. “Se eu tivesse uma bolsa de 70% ou 75%, conseguiria pagar o restante com meu trabalho no táxi”, explica.
Enquanto busca apoio para realizar esse sonho, Valdete continua percorrendo as ruas da cidade com seu táxi rosa, transformando corridas em histórias e mantendo viva a meta que carrega desde jovem.
Quem quiser conhecer mais sobre a trajetória de Valdete ou contribuir para que ela realize o sonho de cursar medicina pode acessar o perfil dela no Instagram, onde a taxista explica como é possível ajudar.