Mulher corrige “A Última Ceia” de Leonardo da Vinci após 20 anos de trabalho

Por Redação 19/04/2025, às 03h02 - Atualizado 18/04/2025 às 21h29

A italiana Pinin Brambilla, uma das maiores especialistas na conservação de afrescos renascentistas, dedicou mais de 20 anos à restauração da obra-prima A Última Ceia, de Leonardo da Vinci. Ao iniciar o trabalho, em 1977, ela se deparou com um grande desafio.

“Não dava para ver a pintura original. Estava completamente encoberta por camadas de gesso e tinta. Havia pelo menos cinco ou seis camadas sobre a arte. Precisei me perguntar se era mesmo um Leonardo, porque estava irreconhecível”, contou Brambilla em entrevista à BBC em 2016.

A tarefa de restaurar o mural, encomendado há mais de 500 anos pelo duque de Milão Ludovico Sforza, não foi a primeira tentativa de recuperação da obra. Localizada em uma parede do refeitório do mosteiro da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, a pintura passou pelas mãos de seis restauradores antes de Brambilla, todos deixando marcas que alteraram feições e expressões dos apóstolos.

“O que buscamos foi resgatar o caráter de cada indivíduo. Foi um trabalho profundamente emocionante”, afirmou ela.

A deterioração precoce do mural é atribuída a uma decisão experimental de Da Vinci. Em busca de perfeição e mais tempo para trabalhar os detalhes, o artista rejeitou a técnica tradicional de afresco, que exige pintar rapidamente sobre argamassa úmida, e optou por aplicar têmpera ou óleo sobre uma superfície seca de gesso. Essa escolha impediu a fixação duradoura dos pigmentos na parede.

Além da técnica instável, fatores externos agravaram a fragilidade da obra. A parede absorvia a umidade de um riacho subterrâneo que Da Vinci desconhecia; o vapor da cozinha próxima danificava ainda mais o mural. Mais tarde, na Revolução Francesa, soldados anticlericais vandalizaram o quadro, riscando os olhos dos apóstolos. E, durante a Segunda Guerra Mundial, o refeitório foi bombardeado pelos Aliados.

Consciente dos riscos que o tempo e as restaurações mal feitas representavam, Brambilla iniciou seu trabalho estudando minuciosamente as intervenções anteriores: que materiais foram usados, como cada restaurador atuou e quais danos foram causados.

Em 1999, após 22 anos de trabalho paciente e rigoroso, a restauração foi concluída. Brambilla conseguiu remover séculos de alterações grosseiras, devolvendo delicadeza às expressões dos personagens e revelando detalhes sutis antes invisíveis, como os alimentos sobre a mesa e os vincos na toalha.