A Organização Mundial da Saúde (OMS) vive um dos momentos mais críticos de sua história em termos de financiamento global. Com a retirada dos Estados Unidos da instituição em janeiro, durante a gestão do então presidente Donald Trump, e a consequente perda de seu maior doador — responsável por cerca de 18% do orçamento da agência —, a organização vem enfrentando uma grave crise orçamentária, com impacto direto em sua operação mundial.
Em uma coletiva realizada nesta quinta-feira (2), o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, classificou o cenário como a maior interrupção já registrada no financiamento da saúde global. Como resposta, a entidade já foi forçada a rever seu orçamento e agora projeta cortes profundos para o biênio 2026-2027, que incluem uma redução de 21% nos recursos, passando de US$ 5,3 bilhões para US$ 4,2 bilhões.
Os ajustes não se limitam ao orçamento. A OMS prevê redução de pessoal, começando pela sede em Genebra, na Suíça, e inclui o fechamento de escritórios em países de alta renda. Segundo o diretor-geral adjunto de Operações Comerciais, Raul Thomas, até um quarto dos custos com salários pode deixar de ser coberto nos próximos dois anos. Ele afirmou que ainda não é possível estimar quantas pessoas serão desligadas, já que isso dependerá da localização e das funções dos servidores afetados.
A escassez de recursos também expôs uma fragilidade estrutural da organização: 80% do orçamento da OMS depende de contribuições voluntárias, concentradas em um número limitado de países doadores. Para contornar esse problema, Tedros afirmou que a entidade está empenhada em ampliar sua base de financiamento e tornar suas receitas mais estáveis.
A previsão é de que a lacuna orçamentária deste ano ultrapasse os US$ 600 milhões, número que obrigou a instituição a iniciar o replanejamento de suas prioridades operacionais. Tedros não descartou novas revisões orçamentárias, informando que as equipes da OMS continuam monitorando a situação financeira global.
Embora não tenha mantido contato direto com Trump, Tedros confirmou que há comunicação ativa com membros do governo norte-americano, que têm recebido informações detalhadas sobre as ações da OMS e respostas formais a questionamentos.
A crise pode comprometer ações estratégicas da organização em áreas essenciais como resposta a pandemias, vacinação, vigilância epidemiológica e suporte a sistemas de saúde fragilizados, especialmente em regiões mais vulneráveis.