Por Gabriela Encinas
Entre os meses de junho e novembro, milhares de baleias-jubarte migram das águas geladas da Antártica para o litoral brasileiro em busca de águas quentes, onde se reproduzem, amamentam seus filhotes e encantam os baianos e também turistas. Saltos, “cantos” e interações sociais podem ser observados tanto em alto-mar quanto de pontos fixos — do Porto da Barra, em Salvador, em um dia comum, ao arquipélago de Abrolhos, no sul da Bahia, um dos principais berçários da espécie no Atlântico Sul.
A população da jubarte está em franca recuperação após décadas de caça predatória. Segundo o Projeto Baleia Jubarte, estima-se que hoje o Brasil abrigue mais de 30 mil animais da espécie, número expressivo se comparado aos cerca de mil registrados em 1988, quando o projeto iniciou suas atividades. A estimativa é fruto de censos aéreo do Projeto e instituições parceiras. Em 2014, com a exclusão da espécie da Lista de Espécies Ameaçadas, o Ministério do Meio Ambiente reconheceu oficialmente o papel do projeto na proteção e recuperação das jubartes.
Embora os números gerais da população sejam positivos, a presença anual no litoral pode variar, estima-se que entre 8 mil e 10 mil baleias-jubarte visitem a costa brasileira todos os anos, número influenciado por fatores como mudanças climáticas, disponibilidade de alimento e impactos humanos como caça.
Em entrevista ao TakTá, Sergio Cipolotti, biólogo e coordenador de campo do Instituto Baleia Jubarte, reforça o caráter inofensivo desses gigantes do mar. “É muito importante saber que são animais dóceis, de grande porte, que podem pesar 40 toneladas, em média até 16 metros e não oferecem perigo. O único risco mesmo são colisões, atropelos e que esses animais fiquem presos em rede”.
Reprodução e preservação
Durante o período reprodutivo, a espécie revela um comportamento social complexo. Ao TakTá, o professor de Ecologia Marinha e Biodiversidade do Instituto de Biologia da UFBA, Francisco Kelmo, detalhou como as baleias se comportam nesse período migratório. “Os machos emitem cantos elaborados, que podem durar até 20 minutos e são repetidos por horas para atrair fêmeas e estabelecer território. Além disso, a espécie demonstra forte colaboração para alimentação e cuidado parental”.
A migração das jubartes também impressiona pelo esforço envolvido, são mais de 16 mil km para se abrigarem no Brasil, principalmente no trecho do litoral Norte da Bahia, onde a água é mais quente. “As baleias-jubarte que se alimentam no hemisfério sul, percorrem até 16.000 km por ano para encontrar alimentos em águas frias e ricas em nutrientes durante o verão antártico. Depois migram para águas quentes e mais rasas para se reproduzir e cuidar de seus filhotes durante o inverno tropical. Essa migração é crucial para a sobrevivência da espécie”, afirmou Kelmo.
Por isso, Kelmo destaca a importância de atenção e responsabilidade ao realizar atividades embarcadas para observação. “São animais de grande porte, portanto, recomenda-se observação à distância, monitorada por profissionais treinados.” Além da observação embarcada, o monitoramento em pontos fixos é uma alternativa eficiente e menos invasiva.
Turismo de observação
Sergio Cipolotti, biólogo e coordenador de campo do Instituto Baleia Jubarte, também orienta quem pretende observar as baleias de perto: “Existe atividade de turismo para observação das baleias em alguns lugares e alguns parceiros instituto de turismo. É muito importante procurar operadores que tenham treinamento e uma atividade adequada para a consciência dessa norma de avistagem e com pessoas que possam interpretar todos os comportamentos dela a bordo”.
Como estão cada vez mais próximas da costa, as jubartes interagem com embarcações, atividades de pesca e turismo — o que exige regulamentação. A observação embarcada deve seguir as regras da Portaria nº 117 do Ibama, com distanciamento adequado e velocidade controlada.
Por fim, especialistas reforçam que a conservação das jubartes é um dever coletivo. Mesmo fora da lista de espécies ameaçadas, elas seguem vulneráveis a ameaças como pesca predatória, poluição dos mares e mudanças climáticas. A proteção delas depende da responsabilidade entre governo, pesquisadores, operadores turísticos, mas também a população para cuidar das baleias, dos mares e do planeta para que a biodiversidade continue existindo.
Ver essa foto no Instagram