Pesquisadores da Fiocruz Bahia identificaram evidências de circulação silenciosa, em bairros urbanos de Salvador, do parasita causador da doença de Chagas. A enfermidade pode agir de maneira imperceptível no corpo dos hospedeiros por anos mas, em fase crônica, causa graves complicações ao coração e sistema digestivo.
O estudo, publicado na revista científica Acta Tropica, utilizou cães domésticos como animais “sentinelas”. A presença de anticorpos nesses animais indica o risco de transmissão em comunidades que sofrem com vulnerabilidade social e saneamento inadequado, condições que favorecem a proliferação de vetores como o “barbeiro”, nome popular para o Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas.
Os resultados do estudo, coordenado pelo pesquisador Fred Luciano Neves Santos, mostraram que nove cães, testados nos bairros de Alto do Cabrito e Marechal Rondon, apresentaram anticorpos contra o parasita no sangue, o que representa uma taxa de infecção de 5,1%.
A análise também apontou uma associação direta entre a infecção e a idade dos animais. Todos os cães que testaram positivo eram mais velhos, o que sugere uma exposição cumulativa ao parasita ao longo do tempo. Como nenhum dos cães manifestou sinais clínicos da doença, os autores reforçam o caráter oculto da circulação e alertam que os dados são preliminares.
De acordo com os dados mais recentes do Ministério da Saúde, 1,9 a 4,6 milhões de pessoas vivem com a doença de Chagas no Brasil, a maioria sem ter sido diagnosticada. Essa invisibilidade dificulta o tratamento na fase avançada, segundo a pasta.
As descobertas em Salvador não são isoladas. Outro mapeamento recente da Fiocruz, publicado na PLOS Neglected Tropical Diseases, identificou que 11,6% de um grupo de risco testado em Feira de Santana apresentaram resultado positivo para a infecção por T. cruzi.
A maioria dos casos humanos estava associada à migração de regiões endêmicas e ao relato de presença de barbeiros no domicílio. Os resultados de ambas as pesquisas sugerem a importância de ampliar a vigilância epidemiológica no estado, conforme escreveram os autores.