Argentina busca novo empréstimo de US$ 20 bilhões com FMI para reforçar reservas e conter pressão cambial

Por Redação 28/03/2025, às 03h07 - Atualizado 27/03/2025 às 17h06

O governo da Argentina negocia com o Fundo Monetário Internacional (FMI) um novo empréstimo de US$ 20 bilhões com o objetivo de reforçar as reservas do Banco Central (BC) e garantir estabilidade cambial. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (27) pelo ministro da Economia, Luis Caputo, durante um evento do setor de seguros na América Latina.

Segundo Caputo, o montante discutido com a equipe técnica do FMI ainda depende de aprovação da diretoria do Fundo. “É muito superior ao que se vinha especulando”, afirmou o ministro, que também mencionou tratativas com o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) para novos empréstimos de livre disponibilidade.

A negociação ocorre em um momento de pressão sobre o câmbio argentino, com o dólar em alta mesmo após o governo gastar cerca de US$ 1,4 bilhão em março para conter a valorização da moeda norte-americana. Analistas apontam que a busca por financiamento externo visa manter um câmbio controlado e evitar um novo pico inflacionário.

Críticas e riscos

Especialistas como Alejandro Olmos Gaona, diretor do Observatório da Dívida Pública Argentina, veem o novo empréstimo com cautela. Para ele, a medida pode trazer riscos ao transferir a dívida interna com o BC – um órgão estatal – para um credor externo que impõe exigências mais duras. “Não é o mesmo dever ao Banco Central, que não impõe ajustes, do que ao FMI, que exige contrapartidas econômicas e monitora a política do país”, observou Olmos.

Segundo o historiador, a dívida externa da Argentina já ultrapassa US$ 470 bilhões, com custo anual de juros estimado em US$ 22 bilhões. Ele aponta que, ao longo de sua história, a Argentina recorreu ao FMI 23 vezes, com resultados muitas vezes negativos para sua economia.

Reforço nas reservas

A estratégia do governo do presidente Javier Milei é trocar os títulos do Tesouro que hoje sustentam as reservas do BC por dólares, o que daria mais solidez à autoridade monetária e, segundo Caputo, ajudaria a conter a inflação. “Não é dinheiro para financiar gastos ou déficits. Queremos garantir que os pesos tenham respaldo real no Banco Central”, justificou o ministro.

Atualmente, as reservas internacionais da Argentina estão em torno de US$ 26 bilhões. O objetivo do governo é elevá-las para US$ 50 bilhões, o que, segundo Caputo, aumentaria a credibilidade da moeda e a estabilidade econômica. Em comparação, o Brasil possui atualmente cerca de US$ 330 bilhões em reservas.

Pressão por câmbio livre

A imprensa argentina especula que uma das exigências do FMI para o novo empréstimo seja a eliminação dos atuais controles cambiais, que incluem o limite de compra mensal de US$ 200 por cidadão. A expectativa é que o acordo seja fechado até meados de abril.

O governo defende que a entrada de recursos ajudará a manter sob controle a inflação, que caiu de 287% ao ano, em março de 2024, para 66% ao ano em fevereiro de 2025. Críticos, no entanto, alertam que a solução para o problema cambial não está apenas em novas dívidas, mas em um plano estruturado de desenvolvimento e reestruturação da dívida pública.

Potencial futuro

Apesar das dificuldades, existe otimismo em relação à exploração das reservas de petróleo e gás em Vaca Muerta, na Patagônia, que podem gerar receitas adicionais em dólar no médio prazo. No entanto, especialistas alertam que, sem planejamento de longo prazo, o país continuará refém de ciclos de endividamento.

“O poder econômico insiste que o desenvolvimento só vem com mais dívida. A história da Argentina mostra que essa fórmula já fracassou muitas vezes”, concluiu Olmos.