Deolane Bezerra volta a ser presa em operação contra lavagem de dinheiro do PCC

Por Redação 21/05/2026, às 08h25 - Atualizado às 08h27

A advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra foi devolvida à prisão na manhã desta quinta-feira (21) em uma ação conjunta do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil. Batizada de “Operação Vérnix”, a ofensiva é o desdobramento de informações encontradas em um celular apreendido na Operação Lado a Lado e mira um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro coordenado pela cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC).

A Justiça decretou seis prisões preventivas e determinou o bloqueio de valores superiores a R$ 327 milhões dos investigados, além do sequestro de 17 veículos, incluindo modelos de luxo avaliados em mais de R$ 8 milhões, e de quatro imóveis. O objetivo das medidas é interromper o fluxo financeiro ilícito e atingir a estrutura econômica que sustenta a facção.

Além de Deolane, a operação expediu mandados contra o chefe máximo da facção, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e seu irmão Alejandro Camacho. Ambos já cumprem pena na Penitenciária Federal de Brasília e serão notificados na cela. Também foram detidos Everton de Souza, apontado como operador financeiro do grupo, e Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola localizada em Madri, na Espanha. Outro sobrinho do líder, Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, que estaria na Bolívia, também é alvo. A dimensão internacional do grupo fez com que a Polícia Civil paulista, com apoio do Ministério Público e da Polícia Federal, incluísse os suspeitos na lista da Difusão Vermelha da Interpol.

De bilhetes na prisão à influenciadora: a origem do caso

De acordo com a Polícia Civil, comandada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a investigação de alta complexidade começou em 20iniciada em 2019 com a apreensão, por agentes penais, de bilhetes e manuscritos com dois condenados na Penitenciária II de Presidente Venceslau (SP). O material indicava ordens internas e planos de ataques contra servidores públicos, mas chamou a atenção ao citar uma “mulher da transportadora” que levantava endereços de agentes.

Um segundo inquérito identificou que a empresa de fachada era a Lopes Lemos Transportes (ou Lado a Lado Transportes), sediada em Presidente Venceslau, usada como braço financeiro da facção. A análise do celular do operador Ciro César Lemos, que está atualmente foragido, revelou as conexões com Deolane. A Polícia Civil de São Paulo informou que o conteúdo extraído do dispositivo revelou conversas com pessoas ligadas à cúpula da facção criminosa, além de indícios de repasses financeiros e conexões com uma influenciadora digital de grande projeção nacional.

As suspeitas contra Deolane

Segundo a polícia judiciária paulista, Deolane passou a ocupar posição de destaque no caso em razão de movimentações financeiras expressivas e incompatibilidades patrimoniais. Os levantamentos apontaram a utilização de estruturas empresariais sucessivas, recebimentos de origem não esclarecida e aquisição de bens de alto padrão. Para os investigadores, a projeção pública e as empresas formais da advogada eram usadas como camadas de aparente legalidade para dificultar o rastreamento do dinheiro ilícito.

O cruzamento de dados e a quebra de sigilo fiscal identificaram Deolane como recebedora de repasses do caixa do PCC. Entre 2018 e 2021, ela recebeu R$ 1.067.505,00 em depósitos em espécie fracionados abaixo de R$ 10 mil. A técnica é conhecida como smurfing e serve para burlar os órgãos de controle. O intermediador era Everton de Souza, conhecido como Player, que indicava a conta dela para fechamentos mensais da transportadora.

A apuração também detectou quase 50 depósitos que somam R$ 716 mil para duas empresas de Deolane, enviados por uma firma que se apresenta como banco de crédito. O responsável formal por essa empresa é um morador da Bahia com renda de cerca de um salário mínimo. A polícia não encontrou nenhuma prestação de serviço advocatício ou atividade lícita que justificasse as transações, o que motivou a Justiça a determinar o bloqueio específico de R$ 27 milhões das contas da advogada.

A ação, que contou com o apoio do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (DOPE), reforça a estratégia das autoridades de sufocar o crime organizado pelo viés patrimonial. Em nota, as defesas de Deolane Bezerra e de Marcola informaram que estão se inteirando dos fatos para se manifestar.